Em boa hora o PS-M criou na Região um " Laboratório de Ideias" que irá permitir aos cidadãos madeirenses encontrar-se e debater de forma descomprometida e abrangente as grandes questões que se põem à sua sociedade, nomeadamente, as generalização da fala democrática como instrumento que possa contrariar o declínio, que se faz sentir, do interesse pela política. Pois, somente a fala democrática poderá possibilitar a concretização, sob o duplo aspecto da sua socialização e da sua interiorização, dos valores de liberdade e igualdade. É nesta desfasagem entre os valores democráticos e as práticas das palavras, que deveriam se corresponder, que encontramos no seu âmago, uma questão mais geral - estará o cidadão madeirense à altura das suas mais pródigas ideias? O seu pensamento não estará sempre adiante das possibilidades da sua acção? Estamos condenados a ser anjos em nossos ideais e continuar demónios em nossas práticas? A idealidade da nossa imaginação está definitivamente comprometida pela materialidade daquilo que somos? Se por um lado existe de facto um défice importante das competências da palavra democrática; por outro o status dessa questão leva-nos a uma verdadeira excentricidade porque quando se evocam essas práticas democráticas, o silencio se faz porque o assunto se torna "inoportuno". Assim, esta acção do PS-M não teria nenhum sentido se estivéssemos condenados a uma visão do homem madeirense incapaz de ser erguer à altura da prodigalidade dos seus ideais. O ideal democrático em que acreditamos é, no entanto, detentor de uma verdadeira radicalidade. Esta se encontra acima da direita ou da esquerda, do conservadorismo ou do modernismo, do liberalismo ou do socialismo, que podem tanto encarna-la como se afastar dela. Ao tentar afastar, ao mesmo tempo, as causas e as consequências desse défice de diálogo e da dissonância daí resultante aponta-se, neste contexto, para a "subsidiariedade democrática" pela qual se poderá constituir um ponto de apoio mediante a renovação de práticas democráticas, que nos permitiria talvez evitar a grave crise possível de acontecer caso perdêssemos a confiança em seus valores e na sua capacidade efectiva de mudar nossas vidas. Mais do que uma questão de pertinência das instituições ou de adesão a valores, a democracia é primeiramente uma questão de competências práticas, especialmente no domínio das ideias, das palavras e das relações com o outro. Como já dizia Sartre: " Concebo uma ideia como uma espécie de chave para decifrar o mundo". Mas, como sair da crise sem tomar coincidência da dignidade humana? Aos académicos, aos técnicos, aos economistas e às pessoas empenhadas nas finanças presentes nessa primeira jornada do " Laboratório de Ideias" competia certamente elaborar novos modelos. As suas ideias podiam catalisar anseios, dúvidas e esperanças e tornar-se, eventualmente, voz do contexto vivido por grande parte dos que habitam o mesmo espaço e tempo. Pensar sobre a Madeira e ser capaz de reflectir sobre ela e catalisar anseios, dúvidas e esperanças, parece ser uma não-possibilidade. Mas, para além disso, é indispensável catalisar o que queremos ser e o que é preciso fazer para o sermos. Precisamos de pensar com ambição, porque para ser algo é preciso pensar no que se quer ser. Por isso a importância, repito, deste " Laboratório de Ideias" que no passado sábado levou a efeito a sua primeira iniciativa com uma mesa redonda subordinada ao tema - " Desemprego: causas do fenómeno, soluções e consequências sociais". Pretendia-se com este debate " assegurar uma visão partilhada entre a importância do dinamismo da economia para criar emprego e contribuir para minimizar o horror da perda de postos de trabalho, e as graves consequências sociais que o aumento do desemprego encerra". Nele participei com gosto e empenhamento como sempre o faço quando estas iniciativas constituem um motivo de reflexão e um apelo à responsabilidade social de cada um de nós. O desemprego sempre foi vivido por aqueles que atinge como desclassificação, marginalização ou exclusão. Antes de existir um sistema de indemnização, os desempregados nem sequer se declaravam, evitando assim serem apontados para o opróbrio público. Pois sempre, e ainda actualmente, o desemprego é vivido como um julgamento sobre si, uma desvalorização profundamente sentida numa sociedade estrutura de em redor da norma do trabalho. Não podemos esquecer que o trabalho é um direito fundamental, é um bem para o homem: um bem útil, digno dele, porque apto a exprimir e a acrescer a dignidade humana. Ensinar o valor trabalho é uma obrigação de todos nós não só porque este é sempre pessoal, mas também pelo carácter de necessidade. O trabalho é necessário para formar e manter a família, para ter direito à propriedade, para contribuir para o bem comum da família humana. A consideração das aplicações morais que a questão do trabalho comporta na vida social induz a própria Igreja a qualificar o desemprego como uma " verdadeira calamidade social" sobretudo em relação às jovens gerações. Quando na Região o desemprego é um problema central marcado por insuficientes protecções sociais, por acentuadas desigualdades socioeconómicas e por elevados níveis de pobreza (inclusive pobreza laboral, ligada a vínculos precários e a um modelo assente em baixos salários) não haveria, estou certo, outro tema mais oportuno para abrir as actividades do "Laboratório de Ideias" quando se avizinham tempos sombrios e o mero conceito de crise não consegue explicar o momento que estamos a viver.

Roque Martins