1. A Madeira está mergulhada numa grave crise, provocada pela incúria conhecida. Faltou estratégia, visão, precaução. Pior, continuam a tratar-nos como atrasados mentais e a fingir que, afinal, até nos conseguiram arranjar uma saída digna e razoável. Insiste-se na mentira. Na omissão. Em orientar a coisa pública como se fosse privada. Olho para a minha ilha e vejo-a desenvolvida, mas a galgar barreiras a caminho do empobrecimento atroz. Nem um excelente desempenho nesta «corrida de obstáculos» os madeirenses, especialmente os que pertencem à grandiosa classe dos remediados e os mais pobres, vai impedir a agrura de sentirem na carne os desvarios dos que os têm governado desde a sua autonomia politica. O grande partido regional e o seu líder falharam na prioridade de incrementarem políticas que acautelassem o futuro, que respeitassem a autonomia conquistada. Deram, pelo contrário, saltos para trás, alimentando uma vergonhosa teia de interesses económicos, que aproveitou a gula desenfreada pelas obras públicas. É cómico ver, agora, o governo regional apresentar o atestado de pobreza ao seu povo, como de uma vitória se tratasse. Metendo na gaveta o valor que norteou todos os seus sucessivos mandatos, a própria autonomia. Que fazer perante tamanha falta de pudor? Querem-nos fazer acreditar que vão ser capazes de inverter uma descida turbulenta aos infernos num período de quatro anos? Quando em 30 desbarataram tudo o que esteve ao seu alcance, fosse proveniente de Lisboa ou de Bruxelas? Será esta liderança capaz de correr esta exigente "corrida de obstáculos", alguns deles intransponíveis? Eu não acredito e penso que ninguém minimamente informado também. Tudo o que foi prometido - irresponsavelmente, mas conscientemente - antes das últimas eleições regionais, não vai ser cumprido. A Madeira está subjugada às orientações do tecnocrata ministro das Finanças, desde o Terreiro do Paço. Quem tem o dinheiro determina e orienta. 2. Aparentemente a população da Madeira mantém-se apática, anestesiada por este autêntico «tsunami». Ao que parece ainda está cambaleante, não se tendo recomposto da bebedeira imposta pelo regime durante os últimos 30 anos. Já se ouve aqui e ali inquietações do povo anónimo que lhe vê atrasar o reembolso dos medicamentos ou das consultas, que vê o seu centro de saúde encerrar no período noturno e os equipamentos desportivos a fecharem portas. Será esse povo consumado às orientações do senhor governo capaz de dizer basta? De acordar da borracheira monumental que lhe infligiram? De protestar, de se indignar? De certo que não será ingrato, mas vai despertar e concluir que chegou à altura de pagar a fatura. E que essa fatura é pesada e ainda não é sentida na sua plenitude. O estado de ilusão terminou. Afinal a Madeira livre e a rosnar independência é isto. Alegremente dependente do Estado central porque não se soube governar. Deste lado olho para a minha região com alguma tristeza. Quero acreditar que ventos de mudança vão vingar num futuro próximo, sem labéus narcisistas e saudosistas. Com determinação, acaba-se de vez com esta "lata" do tamanho do Mundo. *artigo escrito de acordo com a nova grafia

Roberto Ferreira