Querido Diário, faz frio nas Ramblas mas anda-se bem nas transversais e oblíquas, então quando se apanha com um quadrado de sol é uma maravilha. Ainda não vi nem um cabo eléctrico a cruzar uma rua. A salubridade pública é um bocado caótica, e há por todo o lado gente a acartar electrodomésticos em carros de supermercado. Não há motas daquelas que fazem barulho, e há muitas bicicletas. O som de Barcelona é curioso. Silenciosa quando se entra nos bairros, ouve-se passos e gente a falar, como se fosse uma aldeia. Há uma loja de uma rapariga que faz sabonetes muito engraçada. Percebe-se que um bairro não é uma decisão por decreto, cada um tem uma personalidade, uma fauna, uma imigração, um mercado. Ainda não passei por um hipermercado, é como se houvesse cidades dentro da cidade, feitas a uma escala que é porreira para a gente. Já viste a sequência azul do Miró? Está na Fundação. Depois dos azuis, quase que ficas sem forças para ver o resto da exposição. Gosto do Miró, dedicou a vida a simplificar furiosamente. Ele disse que o Franquismo era a anulação do espírito. Gostei dessa ideia. É como uma vizinha minha que tinha um cão chamado Cão. Ou o nosso governo que faz uma escola chamada Brazão de Castro. Mas a minha vizinha tinha espírito, era era um bocado galhofeira. Estou fascinado com esta coisa do Catalão como identidade. Preciso de falar mais com gente, mas eles aborrecem-se com o meu castelhano ordinário. Os teus colegas Diários estão preocupados com as mesmas coisas que tu: retoma, despesismo público... Comprei um casaco porreiro, depois mostro-te. Até terça.
Filipe Ferraz, Realizador