Muito se tem escrito sobre o neoliberalismo e as agencias de rating. Escrito muito mas mal. O neoliberalismo e as agencias são agora acusadas de todos os males. Há quem diga que foi devido a ambas que a Europa derrapou e que foi devido a ambas que estamos a passar pela actual situação. Nada de mais falso. A Europa e o Mundo nunca cresceram tanto como com o liberalismo económico. A Europa atravessa um perido mau - para não dizer péssimo - porque foi mal governada nos últimos anos. Não teve a ver com o liberalismo nem com o neoliberalismo. Alguns países da Europa estão em situação dificil porque tiveram governos que gastaram muito mais do que tinham. Endividaram-se em demasia. Hipotecaram o futuro. Não se adaptaram, também, à nova realidade mundial. Agora chegaram as faturas. Nada disto tem a ver com o liberalismo. Portugal faliu e no entanto nunca vivemos em neoliberalismo. Aliás um país onde mais de metade da riqueza criada vai direitinha para o Estado é tudo menos um pais neoliberal nem mesmo liberal. Portugal faliu porque foi mal governado. Quanto às agencias de rating a conversa é outra. Também sou muito critico com elas. No entanto não sou critico por dizerem que alguns países estão falidos e com risco de crédito de "lixo". Sou critico com as agencias de rating porque elas (assim como os bancos) entraram no forrobodó dos últimos anos. Não nos devemos esquecer que até há bem pouco tempo as agencias de rating davam boas notas a países como Portugal. Como foi possivel, se já era mais que previsivel que iriamos acabar falidos? A critica que faço às agencias não tem a ver com as actuais exigencias e avaliações - que reconheço que são agora exageradas - mas com a irresponsável condescendência do passado recente. A banca igual. Antes os bancos emprestavam irresponsavelmente a Estados e empresas préfalidas. Agora cortam o crédito à economia e às empresas saudáveis. É o 8 ou o 80! Ainda sobre as agencias de rating há quem não tenha gostado que as agencias tenham classificado de "lixo" algumas economias, incluindo a portuguesa. Mas eu pergunto: não serão essas economias na verdade "lixo"? Com o Estado falido; com as empresas falidas; com os cidadãos falidos. O que é isto senão lixo? Basta sair à rua em alguns países da Europa para se concluir que atravessamos um periodo de "lixo". No entanto a receita de alguns governos não está a ser a mais correcta ou adaptada ao ciclo económico em que vivemos. Vários Estados europeus estão em simultaneo - o que é um erro tremendo - com políticas de grande contenção financeira que contribuem para o ciclo recessivo que a Europa atravessa. Defendo politicas com rigor orçamental draconiano. Já tenho dúvidas de políticas próciclicas que só vão ajudar à recessão. Neste momento precisávamos de uma política mais keynesiana (não pura). Dirão: mas quem entra com o dinheiro? Em parte o Banco Central Europeu mas também - e principalmente - os países emergentes que estão com biliões de dólares parados nos seus bancos centrais. É o caso, por exemplo, da China. É que os países emergentes só têm a perder se a crise na Europa não parar. O contágio vai mesmo se fazer sentir. Aliás as previsões do Banco Mundial, para este ano, não são muito animadoras para os países emergentes precisamente devido à crise na Europa. Assim a China e outros emergentes - como o Brasil - só têm a ganhar se abrirem os cordões à bolsa e injectarem dinheiro (liquidez) na economia europeia. De igual forma sou critico com alguns dos Planos de Resgate que têm sido adoptados em países e regiões. Dou o exemplo do Plano de Resgate à Madeira. Estes Planos não devem ser planos de castigo mas sim de ajuda! Em primeiro lugar porque as grandes vítimas destes Planos são o povo e esse é inocente perante a actual situação. Aliado aos Planos de Resgate financeiro deveriam vir junto um Plano de Crescimento Económico. Tenho dúvidas, por exemplo, que Madeira possa pagar o que deve se não tiver crescimento económico sustentado. O mesmo se aplica ao país como um todo. A economia da Madeira, e nacional, precisa urgentemente de liquedez. Dinheiro a circular. Também alguns dos pontos dos Planos de Resgate mostram alguma insensibilidade. Tirar, por exemplo, alguns direitos à Madeira é injusto. A Madeira não deixou de ser uma Ilha, lá porque está em crise. A Madeira mantém-se como uma região ultraperiférica. Este Plano parece não respeitar essas caracteristicas geográficas e naturais, que se mantêm, com consequencias no dia a dia da Região. Aliás em tempos de crise são mais evidentes. Agora penso que só resta o seguinte: que se cumpra o essencial do Plano de uma forma séria e credivel para oportunamente se melhorar aquilo que se deve melhorar. Mas que se negoceiem essas melhorias da forma mais discreta e tranquila possivel. Manda o bom senso e é essa a melhor estratégia com o actual interlocutor que está no governo central, em Lisboa. E é com ele que temos de continuar a negociar.
Paulo Neves