
Os senhores da ‘troika’ confessaram estar “agradavelmente impressionados” com o facto de o programa de ajustamento financeiro da Madeira “ser forte” e constituir “o ajustamento adequado”. As observações foram reportadas ontem pelo ministro Vítor Gaspar, numa alocução mais europeísta do que nacionalista, ou seja, para ser ouvida e bem entendida lá fora e nem tanto para tranquilizar seja quem for do lado de cá da fronteira. Em circunstâncias normais, se não tivesse os chefes da ‘troika’ à perna e meio mundo de olhos postos em Portugal a agourar o declínio do euro, creio que o ministro teria dito que os técnicos do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia ficaram tão atónitos com esta contundente carga fiscal - lançada sobre gente branda que aufere de uns míseros rendimentos e tem o hábito de ‘resolver’ os problemas com meia dúzia de ponchas para anestesiar as contingências da crise (e a capacidade de raciocinar, por conseguinte) - que até estão na disposição de oferecer uma nova ‘prenda’. Na verdade, o adjectivo ‘Forte’ é um primo afastado do ‘Austero’. Para quem governa e empresta, forte pode ser sinónimo de solidez, consistência e confiança. Mas para quem é governado e assiste, só significa uma coisa: bordoada fiscal.
É compreensível que só interesse à ‘troika’ ter a garantia de que cada cêntimo que está a emprestar, ser-lhe-á devolvido com os devidos juros, nos prazos certos. E aquilo que eles viram do programa de ajustamento financeiro da Região ex-Autónoma da Madeira foi uma arrebatadora e indiscriminada descarga fiscal, um arraial de impostos que deixa, obviamente, felizes e tranquilos, os credores do governo regional que estão cá apenas para falar em números, em prazos, em euros. Estão a marimbar-se para as pessoas, para as famílias, para as empresas e até para o emagrecimento do sector público do Estado. Não lhes interessa de onde vem o dinheiro. Se por via da receita ou da despesa. Se é cobrado com equidade, justiça ou legitimidade. Se é obtido com rigor e moderação, numa escala de coerência ou numa lógica de prioridades.
Na verdade, os senhores da ‘troika’ estão a borrifar-se para a imoralidade de um governo prepotente e autoritário, que alimenta famintos com um jornal diário falido que mantém teimosamente como instrumento de chacota política, arma de conservação do poder e de retaliação da oposição, sob a sua influência e jurisdição, pago com o dinheiro dos contribuintes (4 milhões de euros por ano) e com a bênção da Igreja. Afinal, o que interessa à 'troika' se, em contrapartida, foi suspensa a atribuição das bolsas aos estudantes universitários e que 300 tenham abandonado o ensino superior? E qual é o problema se as cantinas escolares já não têm refeições para servir ou se o aumento do preço dos transportes obriga alunos a pagarem mais numa deslocação para a escola do que um trabalhador?
Os senhores da ‘troika’ não querem saber (também porque não estão cá para isso) do futuro dos desempregados sem subsídio, dos 20 mil sem trabalho ou dos 42% dos jovens sem ocupação. Nem lhes interessa os números de indigentes à porta da ‘Sopa do Cardoso’ ou a enchente de gente com tecto nas cantinas sociais. Eles não querem saber em que medida os colossais calotes do governo estão a contribuir para a falência de duas empresas por cada dia que passa. Também nula é a importância que a ’troika’ dá à falta de medicamentos nos hospitais para tratar os doentes oncológicos, à incapacidade dos idosos em aviar meio receituário nas farmácias, ou à ruptura dos serviços de socorro e emergência às populações porque há ambulâncias sem gasóleo nos depósitos.
O Banco Central Europeu está-se nas tintas porque não é a Santa Casa da Misericórdia nem governo de ninguém, pelo que, o empobrecimento, o envelhecimento, o incumprimento das obrigações por parte das famílias e das empresas, a dívida pública, o desemprego, as insolvências, a recessão económica podem fazer parte do futuro de várias gerações de madeirenses mas, para a 'troika', são contas de outro rosário. Na qualidade de credores acidentais do governo regional, compete-nos o dever de escrutinar e avaliar o desempenho de quem nos conduziu até esta desastrosa administração e a esta encruzilhada. Sobretudo ao ver que este desgoverno também está a borrifar-se para muitos de nós e que só lhe interessa números, prazos e euros e saber quando vai ter na mão 1,5 mil milhões de euros. Para isso vale tudo, até engolir sapos grandes como fez Alberto João Jardim na decisão de ser mandatário da recandidatura de Pedro Passos Coelho à liderança do PSD.