São cerca de 7.500 m2 de passadeira vermelha que dão início a um dos maiores espectáculos televisivos do mundo - a cerimónia de entrega dos Oscar. A 84ª edição tinha, à partida, muitos e bons argumentos para considerá-la como uma edição rica e de elevado nível competitivo. E tinha também o regresso, 8 anos depois, de Billy Cristal como apresentador: "Vou apresentar os Oscar para a jovem da farmácia parar de me perguntar quando voltaria a ser o anfitrião", brincou o actor, realizador, produtor e escritor. Apresentador favorito de todos os tempos, se houvesse um prémio para o melhor anfitrião, seria para Billy Cristal, segundo uma sondagem de um jornal norte-americano. E foi um regresso feliz, correspondendo às expectativas. Na lista dos nomeados nas principais categorias, estavam os maiores nomes, quer da "ficha" artística quer técnica, da história do cinema. Com o patamar tão elevado e nivelado como à muitas edições não se via, a grande expectativa pelas premiações estava instalada. E estavam lá todos. Entre eles alguns recordistas em premiações e nomeações como o cineasta Steven Spielberg ou a actriz Meryl Streep e nos filmes 'A Invenção de Hugo' de Martin Scorsese e 'O Artista' de Michel Hazanavicius autênticos 'poemas' cinematográficos e que homenageiam os primórdios da história do cinema; essencial para o melhor compreender no presente. Também a 'A Árvore da Vida' de Terence Malick, que, inevitavelmente, nos obriga a pensar sobre a nossa passagem por este mundo ou ainda a genialidade de Wody Allen com o fabuloso 'Meia-Noite em Paris', aliás, ganhador do Oscar para Melhor Argumento Original, não podiam deixar de serem referenciados. Quanto a vencedores e sem surpresas, os Oscar foram sendo distribuídos de forma "aceitável e globalmente justa", pese embora o filme de Scorsese, das 11 nomeações, ter arrecadado "apenas" 5 estatuetas e em categorias técnicas. Assim e com sotaque francês, o grande vencedor foi o filme 'O Artista'. Ganhou nas principais categorias, designadamente a de Melhor Filme. Sem dúvida, a grande sensação do cinema de 2011, já havia arrebatado prémios em Cannes, onde tive o privilégio de assistir à sua estreia mundial, nos Bafta e nos Globos de Ouro. Esteve inclusive acordado com o seu distribuidor nacional, que seria esta pérola cinematográfica, o filme de abertura do 6º Festival de Cinema do Funchal em Novembro passado e em antestreia nacional, mas por falta de meios técnicos para a sua projecção digital, tal não foi possível. Enfim... Nos agradecimentos finais, surgiu em palco a equipe técnica e artística, onde nem faltou Uggie, o cão actor do filme. O realizador francês Michel Azanavicius, venceu igualmente o prémio para Melhor Realizador, em detrimento de Scorsese; quanto a mim, a única injustiça da noite! A haver uma segunda, foi a não atribuição do Oscar para Melhor Banda Sonora a um génio criativo: John Williams. Para a categoria de Melhor Actriz e com a concorrência mais próxima estar em Viola Davis, o Oscar foi atribuído a Meryl Streep. Sem surpresa, este foi o 3º Oscar obtido num total de 17 nomeações. É obra! E faz da actriz uma Dama de Ferro de Hollywood e do Cinema. Melhor Actor: Jean Dujardin! O francês parece ter nascido no início do século passado e ter de facto actuado no cinema mudo, tal a colagem perfeita ao estereótipo do galã daquela época. Um justo premiado. Referência ainda para a categoria Melhor Actor Secundário onde estavam outros "pesos pesados" e autênticos "monstros da 7 arte", como Kenneth Branagh, Nick Nolte e os veteranos Max von Sydow e Christopher Plummer, que já contracenou com o "nosso" Virgílio Teixeira em 'A Queda do Império Romano' de 1964. O prémio recaiu precisamente em Christopher Plummer, que se tornou aos 82 anos, no mais velho vencedor de um Óscar. Na categoria Melhor Filme Estrangeiro, uma das minhas favoritas, confesso que a minha expectativa e desejo recaia em 'A Separação' realizado pelo iraniano Asghar Farhadi, vencedor da 5ª edição do Festival do Funchal com o filme 'About Elly'. Assim foi e o realizador, nos agradecimentos fez referência à opressão e censura política existente na produção cinematográfica do Irão. Quanto à cerimónia, admito que gosto de assistir à "produção" montada em torno de todo este espectáculo. Não falo propriamente da alta-costura e a atmosfera festiva que as primeiras imagens testemunham a partir do exterior do Kodak Theatre, mas do conjunto da parafernália que passa pelo palco daquela grandiosa sala de espetáculos. Ontem e ao mais alto nível, podemos assistir a momentos de rara beleza incluindo uma actuação do Cirque du Soleil ou ao emotivo tributo que a Academia rende às celebridades desta indústria e falecidas no ano anterior, como por exemplo Elizabeth Taylor. Os Oscar, conseguem envolver e unir o Mundo sob o ponto de vista cultural e ainda fazer o comum espectador, sonhar. Foram quase 4 horas de momentos mágicos em tempos de crise. E o poder do cinema é também tudo isto. Para o ano haverá mais!

Henrique Teixeira - Director do Festival de Cinema do Funchal