Nos vários ataques de piratas e corsários à ilha da Madeira, muitas pessoas foram capturadas. A maior leva aconteceu em 1617, no Porto Santo, quando centenas de pessoas foram levadas cativas para a Argélia, à espera de resgate. A maior parte foram feitas escravas e nunca mais regressaram. Alguns dos cativos eram nobres e padres. O resgate destes era muito lucrativo. Um dos padres raptados na Madeira, porém, era muito enérgico e ativo e não percebia, apenas, de curas divinas, mas, também, sabia de comidas, vinhos, de curativos e tudo o mais para cuidar do bem-estar do corpo. Vida a bordo A vida num barco de piratas nunca foi fácil, dadas as frequentes doenças e ferimentos, a mortalidade era elevada. O padre, a bordo, tomou a iniciativa de tratar a saúde de cativos e piratas, com meios improvisados, assim como dava sugestões, como melhor aproveitar os alimentos e, até, como conservar o vinho furtado, apesar deste ser bebido, apenas, pelos piratas. De início, a ajuda do padre era vista com desconfiança e era recusada. Alguns piratas pensaram, mesmo, que se tratava de um feiticeiro, por ter sido visto, muitas vezes, em rezas que não percebiam. Abençoado pirata Aos poucos, os tripulantes, passaram a ver no padre um valioso marinheiro, que passou a fazer de tudo um pouco, como qualquer outro pirata. Até colaborava na arrumação dos bens saqueados. O padre foi visto, também, a abençoar os piratas, antes de cada pilhagem. Há notícias de que dois dos padres jesuítas raptados na Madeira foram resgatados por sete mil cruzados. Mas o padre pirata continuou sempre a bordo, não foi deixado em terra, como os demais, nem consta ter sido dado para resgate. Curiosa conversão Segundo uma versão religiosa desta história, o padre abençoava, não a pilhagem, mas, sim, os piratas para que pecassem o menos possível. O padre também tentou catequizar os piratas, ensinando-os a rezar. Por isso, numa das igrejas assaltadas, os piratas furtaram um crucifixo, que prenderam a um mastro da embarcação, junto do qual passaram a pedir proteção divina, antes de cada nova pilhagem!... Este tipo de conversão, certamente, não será suficiente para entrar na porta do céu. Mas deve servir, pelo menos, para espreitar nalguma janela do paraíso. O certo é que, bem ou mal, os piratas passaram a ser abençoados. São Dimas - padroeiro dos ladrões Mercúrio, para romanos, era o patrono dos ladrões e mentirosos, e o mensageiro dos Deuses. As notícias deixadas ao cuidado do patrono dos mentirosos, é um facto que dá que pensar! A Igreja Católica, também, tem um santo padroeiro dos ladrões, São Dimas. Este é um dos ladrões que foi crucificado ao lado de Cristo. Às portas da morte, o bom ladrão pediu perdão e teve lugar garantido no paraíso. São Dimas é comemorado a 25 de março, por ser o dia do mês que corresponde à sexta-feira em que Cristo e São Dimas foram crucificados. Se os ladrões têm um santo padroeiro, porque é que os piratas não hão de ter, também, proteção divina?!... João Luís Gonçalves, Procurador da República no Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé.
João Luís Gonçalves