Manuel Viveiros O esquecimento é uma forma de empobrecimento do indivíduo, mas será muito mais deprimente quando a doença do Alzheimer atinge a sociedade. Vem isto a propósito do 25 anos comemorativos de José Afonso. Felizmente ouvi anunciar, pela RDP/M, que num recanto da Madeira alguém lembrou-se do cantor de Abril. Lá estive também eu, no Centro Cívico-Cultural da Ribeira Seca. Os amigos do Zeca, os que o conheceram e outros jovens e adolescentes que não o conheceram, todos ouvimos recitar a música e os poemas de Abril, a visão planetária de Zeca Afonso contra os vampiros, desde os campos do Alentejo até ao mercado moçambicano de Xipamanine, ao homem angolano que veio da mata e à prisão de Santa Cruz, em Guanabara, onde fora preso Alípio de Freitas. Ali foi-nos contado por testemunhas oculares a presença de Zeca Afonso em Machico (1976) cantando abraçado à estátua de Tristão Vaz Teixeira e, logo de seguida, o avanço das tropas do Funchal, a mando do brigadeiro Azeredo, contra a multidão que foi obrigada a dispersar, fugindo pelas ruas da vila, às escuras, porque foi dada ordem de apagar toda a iluminação pública: um episódio indigno de um Portugal renascido dois anos antes. Emocionei-me profundamente quando adultos e jovens cantaram em uníssono a canção emblemática de "Grândola, Vila Morena", como se fosse especialmente dedicada a Machico. Por fim, ficou como moral da história o pensamento dominante do encontro: "Não é Zeca Afonso que precisa desta lembrança, nós é que precisamos de recordar Zeca Afonso!".