De mãos dadas, lado a lado, em passo certo pelo passeio geométrico e a preto e branco.
A promessa cumpria-se entre a rua da escola e o velho cinema, onde hoje estão lojas que desconheço ou que não quero conhecer.
Olho e ainda lá estão os cartazes dos filmes, ainda lá está a bilheteira, ainda nos vejo pequenos e em fila indiana.
Ainda nos vejo a entrar na sala de cadeiras que recordo verdes, mas que poderiam ser de outra cor qualquer. A memória tem tons que nos levam de volta ao lugar da descoberta. Podem não ser os reais, mas são os nossos, aqueles que recordamos e que são, por isso, mais verdadeiros do que a verdade.
Uns minutos depois e já estamos a ser distribuídos pelas cadeiras, demasiado grandes e que nos deixam os pés suspensos do chão.
A luz apagou e acho que recordo um gongo. O ecrã enche-se, acende-se. Gepetto dá vida ao Pinóquio, o boneco de madeira que queria ser um menino de verdade. Há uma fada, um grilo falante e um peixe dentro de um aquário. Era quase impossível ao boneco não ser tão verdadeiro como nós. Ali, de pés que não chegavam ao chão e a ver cinema de verdade pela primeira vez.
Assim tocados pela varinha da fada que nos tornaria de magia para sempre. Encantados pelas imagens no ecrã quase que demasiado grande para os olhos, mas com o tamanho certo de um coração em descompasso pela alegria do que é novo.
Sei agora que nunca mais recuperei desse primeiro momento inaugural. Os pés já tocam o chão, mas o coração ainda voa em todas as imagens que construíram memória desde então.
E, hoje, quando as luzes do Teatro Kodak, se acenderem, será à sala do velho cinema que regresso, a encolher os pés para fugir do chão, e sentir, uma e outra vez, esse toque que nos torna de verdade ao contrário. Feitos de magia pela vida toda.
Feitos cinema por dentro e por fora. Heróis de lutas, amantes de beijos finais, bailarinos de banda sonora. Assim, salvos no ultimo momento da monotonia e resgatados ao sonho. Meninos de verdade a fingir.