Numa pequena notícia intitulada " Jardim quer "arrumar" " a propósito da inauguração das instalações da Associação e Academia de Bilhar temos, nas declarações do Presidente do G.R., as linhas-mestras do que provávelmente será o seu discurso para tentar convencer a população a resignar-se com os sacrifícios que aí vêm. Como é habitual começa por culpar apenas os outros - o dinheiro escasseou "devido à loucura do Mundo", diz ele. Não há dúvidas que o Mundo e a UE estão prisioneiros dos interesses da especulação financeira e vivem para satisfazer os interesses dos Mercados e também não há dúvidas que o BCE serve os Bancos, emprestando-lhes dinheiro a juros de cerca de 1%, para depois estes comprarem a dívida dos Estados a taxas elevadíssimas e imporem uma austeridade que conduz ao fim das políticas sociais e à recessão económica. Mas ficar por aqui é ver metade do problema, é esquecer que houve uma política de "loucura" na Região que conduziu à delapidação dos parcos recursos financeiros, a um endividamento insustentável e a um tipo de desenvolvimento que não criou um modelo ecónomico gerador de actividades que criassem riqueza e postos de trabalho. Por isso é que ficamos altamente endividados, com um desemprego e um empobrecimento galopante e com uma constante diminuição do número de Empresas. Foi esse endividamento brutal resultante dessa "loucura" que levou à assinatura do vergonhoso acordo com Lisboa, onde a Autonomia é traída. São entregues poderes Autonómicos fundamentais na área financeira nomeadamente na administração das Finanças, acaba-se com as medidas de diferenciação de impostos destinadas a "corrigir as desigualdades derivadas da insularidade" e até castiga-se mais os madeirenses que os restantes portugueses, como com os aumentos nos Transportes e combustíveis. A entrega de poderes de admnistração a Lisboa de meios financeiros da Região só agora é que veio a acontecer com a Grécia em relação à UE - passamos a ser o quê? Mas sobre isto nada se diz. Mas sabendo da gravidades da medidas que vão ser aplicadas para pôr os madeirenses das camadas médias, trabalhadoras e reformados a pagar os custos do que não fizeram, logo vem o Presidente tentar convencê-los a aceitar o brutal sacrifício. Prega para os outros o que nunca praticou. Diz ele que "há que saber viver com aquilo que temos" - porque não o fez antes de nos levar ao desastre? E depois acrescenta - "...ao mínimo erro tudo está perdido. Perde-se a Autonomia, a nossa capacidade em termos de sustentabilidade financeira que nos permita enfrentar o futuro com confiança." Se é Lisboa quem administra já uma parte substancial das finanças regionais e retirou várias competências administrativas à Região, de que Autonomia fala ele, mais a mais quando fala em entregar a Saúde e a Educação ao Poder Central? Mas o que lhe interessa é que continue a haver um Governo e uma Assembleia e à sua volta um conjunto de estruturas pesadas que foram criadas muitas delas para tornear os limites ao endividamento e fazer obras várias delas de utilidade e prioridade duvidosa. Mas enquanto não há dúvidas sobre a dureza das medidas que vão recair sobre a população trabalhadora e reformada, continuamos sem saber quantas estruturas governamentais vão ser extintas, quantos Institutos e Sociedades de Desenvolvimento vão seguir igual caminho e qual vai ser o contributo das grandes fortunas feitas na Região graças à Autonomia para ajudar a superar a crise? É que, Sr. Presidente, como bem sabe, enquanto houve fartura uns comeram as fatias do bolo e outros contentaram-se com as migalhas. Agora, com esta crise, não lhe fica bem andar a tentar convencer os que mais vão sofrer com ela a se resignarem com a miséria para que os mesmos que comeram o bolo da Autonomia fiquem com o pouco que resta! Ou afinal, a crise é só para os que menos têm?
Paulo Martins