Arrepiei-me quando li na edição do Público de 17.08.11 que o novo Plano para o Porto Santo prevê uma capacidade de 60.000 habitantes, 8 mil camas turísticas e 23 mil residenciais, num total de 31 mil camas. Uma visão megalómana com o objectivo alucinado de massificar um destino nicho. Ou seja, quantidade como princípio, destituída de valor acrescentado diferenciador. E há alternativas? Certamente. Em primeiro lugar, relembrar os "distraídos premeditados" que desenvolvimento é, acima de tudo, não destruir os activos estratégicos - a natureza e o património cultural - e que a competitividade dos destinos ganha-se pela preservação e não pelo "crescimento" como um fim em si mesmo. É neste contexto que não me revejo num pensamento imaturo para o Porto Santo que visa ganhar uma massa crítica ilusória e sem sustentação estratégica de 8.000 camas de capacidade instalada, com a construção de unidades hoteleiras de dimensão antagónica com a micro dimensão e identidade da ilha. Esta VISÃO ULTRAPASSADA E CONDENADA inaugurou-se com a construção da maior unidade da ilha, uma mega construção com péssimo impacto ambiental - a aguardar conclusão da obra - e hoje ícone perfeito do que não se deve fazer. São opções que, desprezando o seu impacto no meio envolvente, promovem a degradação do produto. É o patrocínio pretensioso de ilhas gigantes dentro de uma micro ilha. Defendo exactamente o oposto. Defendo uma proposta de valor centrada num conceito de ECODESTINO IRREPREENSÍVEL. O Ecoturismo como factor diferenciador gerador de uma forte reputação internacional e como fonte criadora de riqueza sustentável. Uma estratégia que passaria por nos concentrar, não no que se vai fazer, mas sim no que, NÃO DEVEMOS FAZER. Uma visão de "Ecoturismo" apostando numa ilha ecológica, com forte consciência ambiental, sustentável, responsável e saudável cujos produtos core seriam a "praia e mar" e o "turismo de saúde" promovendo as potencialidades terapêuticas da areia da ilha. Um conceito cuja marca diferenciadora, à imagem de alguns destinos verdadeiramente "desenvolvidos" passaria por anunciar O QUE A ILHA NÃO TEM (limito-me a copiar conceitos): Somos uma ilha que NÃO TEM: Centros comerciais; cadeias de fast food; mega hotéis, all inclusives, time-sharing - só pequenas unidades - uma ilha que não tem carros (só dos residentes + táxis - todos eléctricos não poluentes). Um destino onde os peões, os ciclistas, as segways e os cavalos seriam os principais meios de transporte, sempre com prioridade sobre os poucos veículos eléctricos. Uma ilha em que, imitando bons exemplos, os sacos de plástico seriam totalmente banidos e seria feita uma aposta na agricultura biológica com vista a maximizar o consumo hoteleiro dos produtos agrícolas da ilha - por pouco expressivos que fossem. A implementação de um conceito desta natureza, só por si, constituir-se-ia numa imagem de brutal força promocional! Constituir-se-ia facilmente numa referência nos mercados gerando procura sustentada. Seria também, só por si, notícia geradora de um boca a boca consistente. No fundo, seguir uma estratégia ambiciosa, diferenciadora e de compromisso com o longo prazo - estruturante. Tudo o resto é apostar em modelos de "crescimento" ultrapassados, não competitivos, NÃO SUSTENTÁVEIS, em directo confronto com destinos massificados, ambiente onde sejam, as 8.000 camas ou o dobro, serão sempre insuficientes para tornarem o destino competitivo. Em suma, andamos a desprezar as tendências da procura sem capacidade de lançar projectos verdadeiramente galvanizadores. Chegou a hora de apostarmos em novos conceitos, em modelos virtuosos potenciadores de notícias elogiosas sobre a Madeira. Fica o desafio!
João Welsh, Vice-presidente da APAVT