(…) E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti". John Donne Os números do desemprego avançados pelo INE revelam o desastre social a que o agravamento da política de austeridade está a conduzir o país. Na Madeira, os números atingiram os 20 mil desempregados. Segundo o Centro de Emprego da Madeira, registaram-se mais de mil novos desempregados no espaço de um mês. Estes números espelham o resultado visível da profunda recessão económica que nos está a atingir, mesmo antes de aqui, na Região, se terem efectivado os efeitos do plano de resgate e ajustamento financeiro. Sendo um problema transversal a todas as gerações, esta tragédia social atinge com particular acentuação os jovens, constituindo, estes jovens, a geração em que mais se investiu na qualificação. Uma das classes profissionais particularmente afectada pelo desemprego e vínculos precários é a classe docente. Uma classe sucessivamente maltratada pelos governantes numa espécie de relação amor-ódio que, julgo, nenhum divã de psiquiatria conseguiria resolver. Se por um lado lhes é confiado o futuro das gerações, por outro decide-se que só os tratando mal é que serão bons profissionais. Começaram por descredibilizá-la enquanto classe profissional. Desta forma, foi, progressivamente, apresentada aos olhos do público e das opiniões menos avisadas, como uma classe relapsa, pouco trabalhadora e com ordenados acima da média. Tudo isto muito bem cozinhado com exemplos falaciosos e estudos de duvidosa credibilidade. Esta classe, sobrecarrega-se com tarefas que não deviam nem tinham que as executar e, simultaneamente, exige-se-lhe que apresente resultados satisfatórios, para que as estatísticas continuem a brilhar e a justificar todas as acções que vão sendo perpetradas. Neste sentido, o Ministério da Educação e Ciência tem trabalhado, quase compulsivamente, dando a ilusão clara que está, efectivamente, a fazer alguma coisa. Até está. Embora no essencial esteja só a legitimar a aplicação de mais medidas que vão agravar o desemprego docente e a fragilizar, ainda mais, o trabalho precário, usando mão de obra qualificada a baixo custo. Ele foi a revisão curricular, sem alterar os conteúdos programáticos dos mesmos com um único objectivo: poupar recursos humanos, à custa do aumento do desemprego, da deterioração das condições de leccionação e consequentemente da degradação da qualidade do ensino. São as alterações ao modelo de gestão e ao modelo de concurso de recrutamento de professores. Tudo está a ser mexido e, como é hábito, sem qualquer avaliação séria do que já foi feito. Tal como os que o antecederam, o Ministro Nuno Crato quer deixar a sua marca. Gostaria de dizer que aqui, graças à Autonomia que nos devia reger, estávamos a coberto de algumas destas arbitrariedades. Mas como sabemos, a Autonomia está em profundo estado de coma e, no que à educação diz respeito, sucumbiu mesmo. A hora do óbito foi decretada no momento que usando o argumento da intercomunicabilidade se desistiu de inovar na procura de soluções para a educação e o sistema educativo regional. Raciocínio anémico e míope, que escuda a falta de ideias e de opções e a coragem para enveredar por outros caminhos. Caminhos que, de uma vez por todas, garantissem, de facto, a qualidade que tanto se quer e é imprescindível para promover a formação de cidadãos críticos, civicamente responsáveis e democraticamente intervenientes na vida comunitária.

Marília Azevedo