
Angela Merkel não faz a mínima ideia, e até está a marimbar-se para isso, mas tornou-se no perfeito inimigo externo de Alberto João Jardim. Afinal, pouco interessa ao governo regional estar a esgrimir argumentos com o ex-inimigo externo, o tal governo centralista de Lisboa de inspiração colonialista fascista que andou a roubar os impostos da aguardente e da banana da Madeira durante séculos. Por um lado, porque a gritaria de Jardim ecoa do outro lado do Atlântico e seja Pedro Passos Coelho, seja o ministro Vítor Gaspar, conseguem com meia dúzia de palavras desmascarar as tácticas demagógicas de Jardim e pô-lo a falar fininho, no lugar de caloteiro irresponsável e de omissório de dívidas colossais. Depois, porque o Governo da República já deixou claro que não tem razão quem mais grita, mas quem cumpre metas e objectivos com transparência e rigor, não fosse ele o intermediário na mesa de negociações do plano de resgate económico e financeiro da Região com a ‘troika’. A tal que é desprezível mas que vai resgatar as contas públicas do naufrágio lento e emprestar dinheiro para pagar salários aos funcionários e para amortizar algumas das dívidas aos fornecedores.
Com Merkel, tudo é diferente. Jardim pode fazer um estardalhaço, pode por-se em bicos de pés, vociferar, esbracejar, intitular-se de chanceler dos estados federais das ilhas da Macaronésia e fazer convites à líder da União Democrata Cristã para vir à Madeira ver ‘in loco’ as grandes obras beneméritas e sustentáveis, quais capitólios da Madeira Nova (com a excepção daqueles túneis e pontes inacabados ou os atropelos no ordenamento do território e na orla costeira) que, para lá da Baviera ninguém ouve nem quer saber do esbanjamento de dinheiro na plataforma africana. Em Berlim só os emigrantes sabem quem é Jardim. À Madeira, a chanceler alemã só virá ou no 1.º de Abril ou na trupe de Carnaval do social-democrata Rui Adriano. Ontem, a pobre Angela Merkel fez uma aparição nas ruas do Funchal onde se mostrou rendida - num exercício de invulgar e espontânea sátira popular, diga-se, (o pormenor da laranja com a fotografia de Jardim ao peito foi comovente) - às magnânimas obras do grande, do notável e querido presidente do governo regional.
Se a carta que a Quinta Vigia remeteu para Berlim lá chegou, deve ter mesmo deixado os secretários da coligação Merkel estupefactos: “Aber dies ist der Weg von was?“ (Mas isto vem a propósito de quê); espreitando o nome do signatário “Jardim, Jardim aber wer ist?” (Jardim mas quem é Jardim?), concluindo o óbvio: “besteht keine Notwendigkeit!" (Não há necessidade!). E se de lá vier uma resposta menos abonatória para o império de betão armado insular, o corrector da Quinta Vigia fará a devida tradução para que não haja nenhuma interpretação abusiva. De facto, não havia necessidade. Os alemães são, juntamente com os ingleses, os estrangeiros que melhor conhecem a Madeira e aqueles que mais contribuem para o seu progresso há várias décadas, antes mesmo do reinado do jardinismo. Ainda hoje, são os nossos melhores clientes, na hotelaria e no turismo de cruzeiro. Portanto, descansem, que os germânicos não têm aquela visão redutora que alguém julga. Ao contrário de nós, eles vivem muito depois dos 60 anos, envelhecem com saúde, vigor e a curiosidade sobre a actualidade no mundo. Portanto, sabem do que falam. Lamentável mesmo é ver o prestígio turístico do destino Madeira ofuscado por um alter-ego político. Nada que nos surpreenda, a nós, claro. Cá dentro no nosso pequeno burgo.