Tenho saudades do Carnaval. Não, não é dos desfiles de gente em biquini no pico do Inverno, como se estivéssemos em Agosto ou no sambódromo do Rio. Não é essa a minha nostalgia. Não é por um Carnaval que nunca foi nosso, mas que ‘roubamos’ aos outros por acharmos que o nosso não tinha glamour suficiente.
O que tenho saudades é de combinar com os amigos da altura, mais ou menos às duas à porta da minha casa, para calcorrearmos a vizinhança a troco de malassadas e muitas gargalhadas. Mascaravam-nos com que havia em casa, roupas velhas do pai, da mãe, da prima, da avó. Um vestido de noiva a cheirar a mofo também servia. E lá íamos nós, felizes como só se é na inocência da infância, desafiar quem nos recebia a descobrir quem éramos debaixo das nossas máscaras e collants na cabeça e mais o que nos metiam em cima.
Gritávamos ‘treeeee’ (um chamamento universal para não nos reconhecerem a voz) e esperávamos. “Este é a filho da Maria, vê-se logo pelo formato da cabeça”, divertiam-se também os mais velhos. “Esta é do Alberto”. E lá se passava o dia nisto. Uma partida aqui, um susto além, uma arrelia a outro grupo.
Era o nosso Entrudo e ninguém levava a mal. Mas já nessa altura ouvia dizer dos mais velhos que o Carnaval são dois dias. Também a mim me parecia pouco tempo de folia, mas, de facto, só assim valia a pena. A ânsia da semana que antecedia o grande dia, os preparativos com a prata da casa e a busca desses tesouros escondidos no sótão.
Infelizmente, houve quem não se contentasse e fizesse desta terra o ‘país’ do Carnaval constante. O que foi giro, teve muita graça, valeu muita ostentação e elogios país fora. Mas essa festa, tal como os desfiles de gente semi-nua avenida abaixo, não era a nossa e um dia tinha de acabar.
A avidez de uns pela festa, acabou com tudo. Estamos no Carnaval e há tanta gente a levar a mal a brincadeir. Os 20 mil de desempregados madeirenses, as empresas que estão a arder com dinheiro de um Governo Regional caloteiro ( o poder central e local não escapam), os doentes que não têm medicamentos, os alunos de escolas sem gás e papel higiénico. Tantos exemplos de gente que não tem motivos para a gargalhada desprendida. Há pessoas com fome e isso tira o humor.
Isto deixou de ter graça. Já não há carnavais com antes. Ainda sou do tempo em que o país delirava com a foto do presidente do Governo Regional em cuecas na capa de um jornal. Agora que regressa orgulhosamente de calças nas mãos à ribalta mediática nacional já ninguém acha piada nenhuma.
Palavra, tenho saudades do Carnaval.