Várias vozes social-democratas insulares pronunciaram-se publicamente sobre as polémicas mas oportunas declarações da chanceler alemã, alusivas à necessidade de haver uma viragem na aplicação dos fundos europeus, de modo a que possam gerar competitividade em vez de mais obras “bonitas”, muitas delas úteis e outras tantas dispensáveis.
As vozes foram céleres em atacar o “mau gosto” de uma Merkel porventura “mal intencionada”, por proferir palavras reveladoras de “imbecilidade”. A rapidez na reacção foi por si só confrangedora. Guilherme Silva, Nuno Teixeira e Conceição Estudante, os primeiros a debitar desconsiderações, não foram ao cerne da questão - que opções estratégicas deve a UE apoiar?-, preferindo encenar uma revolta com recurso a argumentos gastos do que posicionar-se com total abertura para negociar verbas que possam contribuir para o fortalecimento de um novo paradigma de desenvolvimento. Para nosso azar, outra coisa não seria de esperar da previsível geração do betão, a mesma que, por sinal, através de outras vozes mais sonsas, continua muito preocupada em encontrar os detractores que colocaram a Madeira 'desonesta' na memória da chanceler, como se isso não fosse óbvio e, simultaneamente, irrelevante.
A estes disparates juntou-se Jardim. Embora ausente não quis perder o momento propício à pancada. Limitou-se a accionar o habitual registo ofensivo, ditando telefonicamente para que alguém pusesse em comunicado que “a chefe do governo alemão produziu declarações ignorantes sobre a Madeira”. Admitindo que a "ignorância" decorre da falta de informação sobre os méritos da Região, do seu esgotado modelo de desenvolvimento e das virtudes de um governo sempre vitorioso, que raio tem ido o Presidente fazer ao centro da Europa durante estes anos todos? Para que tem servido a representação permanente da ilha em Bruxelas? E as reuniões das Regiões da Europa e das Ultraperiféricas? E as palestras, as conferências e as viagens com agendas e comitivas ocultas?
Menos mal esteve o executivo regional que reuniu sem Jardim e conseguiu exortar Merkel a ser aliada da Região para que a praça madeirense não perca benefícios e seja garante da competitividade que urge. Um pedido objectivo e com implicações no futuro colectivo, pois visitas forçadas, passeios em carros de bois e 'briefings' à distância não passam de brincadeiras de amadores.
Todas as vozes da ira ou de birra concorreram para confirmar a convicção de que o poder perde-se em banalidades, não distingue o essencial do acessório e pior, não age em conformidade.
Angela Merkel acabou por fazer pela Madeira aquilo que muitos dos nossos governantes têm ignorado. Deu-lhe notoriedade. Mais, indicou um caminho a seguir. Todos sabem qual foi a resposta oficial. Ofensa, ironia barata e sobretudo mostra inequívoca da pequenez madeirense numa oportunidade única de afirmação. Por exemplo, alguém sabe dizer se o Turismo regional desencadeou de imediato nas redes sociais alguma campanha de promoção da Madeira Nova destinada ao mercado alemão ou se convidou o 'trade' germânico a constatar in loco o que temos de competitivo, único e irrepetível? Será que alguém se lembrou de juntar os empresários de origem alemã a residir na Madeira para que simplesmente dissessem o que é viver na ilha fantástica que continua precisar da solidariedade europeia? Será que algum governante pediu a Passos Coelho para na próxima oportunidade segredar à chefe do Governo alemão que a austeridade que se vive na Região precisa de flexibilidade urgente sob pena de vias rápidas, ponte e túneis de nada servirem?
O que não dirá Merkel se lhe “bichanarem” aos ouvidos os disparates proferidos por vozes autorizadas mas que agora, para se fazerem ouvir e terem gente que as ouça, precisam de regressar com urgência aos adros das igrejas, crentes na caridade cristã que muitas vitórias deu ao PSD e na tolerância emprestada aos fazedores de promessas?