Hoje fala-se muito em acabar com as gorduras das instituições. Há consenso, mas raramente se diz como o fazer. E esquece-se que muitas vezes as "gorduras estão na cabeça das pessoas", isto é, que é preciso mudar formas de pensar e de actuar. Contudo, ganhámos certos hábitos e rotinas, há constrangimentos culturais e sociais, interesses instalados, uma grande dose de ignorância, etc. que dificultam a mudança, a inovação, o explorar de novos caminhos… e levam-nos a aplicar, de forma mais ou menos estereotipada, as receitas de outrora e as soluções do costume. Em alturas de crise, normalmente estão criadas as condições para que algumas destas resistências sejam atenuadas, para que se aceite rever aquilo que sempre se deu por adquirido e que muitas vezes se defendeu com unhas e dentes, muitas vezes de forma acéfala e sem consistência conceptual ou operativa, apenas usando e ostentando os "galões"… Cada um deve limpar a sua cabeça, de forma a que seja capaz de analisar e propor as melhores soluções para os problemas que surgem, sem seguidismos cegos e preconceitos retrógrados. Não se trata só de estar disponível para mudar, para rever processos, metodologias, soluções … é necessário ter sentido crítico e espírito de iniciativa (é preciso ter conhecimento e sabedoria), pois muitas propostas de mudança que nestas alturas alguns 'iluminados' aparecem a fazer/impor, não são o melhor caminho, só servem para criar confusão e manter tudo na mesma. Na situação em que o Desporto (mas não só) se encontra, é imperioso equacionar as melhores soluções para rentabilizar as potencialidades únicas que oferece enquanto meio de transformação do Homem. Mas para isso é necessário que não se caia na tentação de resolver problemas parcelares sem ter uma visão de conjunto. Seria o mesmo que tomar um medicamento para baixar a febre sem tratar a doença (só se mascara o problema e depois pode ser tarde demais). As opções que hoje se tomam, no Desporto e na Educação (mas não só), terão percussões nas próximas gerações. Se não limparmos as gorduras que temos na cabeça, dificilmente teremos hipóteses de ter sucesso. Olhar menos para o umbigo, talvez seja um bom começo…Com o conhecimento e os meios hoje disponíveis, falhar não pode ser uma opção. Não é tolerável que se cometa tal 'crime'…
Hélder Lopes, Professor Universitário