A morte convoca-nos sempre a uma série de interrogações, para além da tristeza profunda do desaparecimento de alguém que aprendemos a amar, a respeitar e a admirar. O meu último regresso à Madeira representou um misto de sensações: da missão de me despedir do meu pai e de conversar com familiares e amigos sobre a vida, diálogos que normalmente os momentos de choque propiciam. Ouvi mais que falei, confesso. Todos eles, entre funcionários públicos, profissionais liberais e pequenos empresários, narraram as suas aflições, as suas angústias e a sua falta de esperança no futuro. Todos, sem exceção, só conversam em circuito fechado, no seio dos mais próximos, porque, em pleno século XXI e numa região integrante de um estado democrático, "as paredes ainda têm ouvidos" e - alertou-me uma das interlocutoras - na última greve geral "chefes amigos" das repartições públicas aconselharam os colaboradores a não arriscarem. Manifestações de rua? Nem pensar. "Há bufos por todo o lado", asseguram-me, prontos, a troco de 30 dinheiros, a entregar a cabeça de quem protesta ao chefe-mor. Esboço um encolher de ombros, ávido de uma boa notícia. Engano-me, porque nesta minha rápida deslocação à ilha os momentos são de lamentação e de incerteza. Empresários e profissionais de sucesso no tempo das vacas gordas estão à beira do abismo, espremidos entre as dificuldades de cumprirem com os compromissos ao banco e o aumento desmesurado dos impostos. Garantiram-me que a atividade económica no Funchal está à beira do colapso e que as constantes mexidas na circulação automóvel da baixa está a afastar para as grandes superfícies comerciais consumidores com fraco poder de compra. Tudo o que me chega aos ouvidos é maioritariamente mau. O rol da miséria: centenas de alunos abandonaram a universidade da Madeira por falta de dinheiro, a Cáritas anda à rasca para acudir a todas as famílias da Madeira que passam fome e políticos sem vergonha continuam a saltar de uma cadeira para outra para garantirem o tacho. Perante este quadro desolador mas real, o primeiro-ministro Passos Coelho associou-se à milésima entronização do eterno Jardim, para justificar uma vez mais a necessidade de mantermos um rumo de austeridade, com salários baixos e perda de regalias sociais. E fê-lo perante dois reformados de luxo, que acumulam vencimentos e pensões (os dois principais dignitários da Região). Uma exceção, mantida convenientemente pelo PSD/Madeira, que se recusa a alterar o estatuto político-administrativo. Uma vergonha! A falência do que é público na Madeira é aflitiva. Não há dinheiro. Nos hospitais, nas escolas, nos lares de idosos. Começa a faltar o que é básico. Tudo isto é escandaloso e revelador de que a aposta louca no betão armado foi um erro que serviu para perpetuar políticos no poder e alimentar amigos do regime no privado. Enquanto na República o primeiro-ministro é apelidado de gatuno, ladrão e outras pérolas que não cabem na honradez deste DIÁRIO, na Madeira há medo de se protestar, de se manifestar. A indignação reside dentro de quatro paredes. Neste meu regresso doloroso à Região veio-me à memória o discurso do presidente do Banco BPI, numa conferência onde participei recentemente. Disse ele que o povo aguenta a crise. Tem de aguentar, mesmo que venha aí mais austeridade, mesmo que os salários tenham ainda de baixar mais. Porquê? Porque sim. E eu, atónito, boquiaberto a ouvir aquele homem a perorar sobre a crise que nos entropece o ânimo, que nos faz mais pobres. E na minha cabeça a certeza absoluta de que aquele personagem, que veste Prada, Armani ou Boss, nunca passou por uma dificuldadezinha na vida. Teremos mesmo de aguentar sem protestar?

Roberto Ferreira