Morreu Oscar Niemeyer, o arquitecto da linha curva. E é difícil não sentir o vazio que deixa ao curvar a visibilidade e desaparecer, apenas num dos planos. Niemeyer sabia, como nós, que não habitamos linhas rectas, que a vida se faz desse curvar incessante, que nos conduz e protege.
Não habitamos as casas e a vida em linha recta, essa linha rápida entre um ponto e outro. Habitamos todos os dias como se fosse possível o infinito. Habitamos as nossas casas para sempre, como habitamos as pessoas. É de todas essas curvas, do abraço ao sorriso, que se constrói a memória e a humanidade que nos preserva e reserva sempre mais um pouco.
A memória habita sítios concretos, curvas que deixamos que se colem a nós: o recanto onde nos escondemos e abrigamos, a curva no sofá onde se sentavam todos os que já lá não estão mas que permanecem na curva, exactamente nesse ponto onde os perdemos, mas não abandonamos. Estão ali ao virar, mesmo no lugar onde se pode assinalar a saudade e o amor. Permanecem nessa curva exacta, perfeita, capaz de guardar, de proteger, de ficar e fixar.
É a curva que nos define. É ainda em curva que crescemos, apesar de fisicamente parecer ao contrário. Desde a curva da mãe que nos anuncia, à curva da mão que permite o afecto, à curva do braço que permite o abraço, à curva do dedo que permite escrever. E são curvas as letras, só são rectas quando a máquina as tenta imitar. E somos crescidos quando às linhas rectas que facilmente desenhamos acrescentamos, de repente, essa curva e conseguimos finalmente desenhar o mundo. E o mundo é redondo em curva, são redondas as caras, os sorrisos, os gatos, os cães, as flores, os abraços. É redonda essa humanidade de que somos feitos.
Sim, Niemeyer tem razão, a curva é o infinito, o resto é brincadeira. Só a brincar seguimos em linha recta, a testar uma capacidade não natural. Natural é curvar-se, não para nos rendermos, mas para que seja possível o amor e a vida.