O Presidente da República, que tem a sorte de ser abonado com um silêncio de ouro, ao contrário da maioria dos portugueses, cujo silêncio de nada vale para pagar as contas, tem insinuado que o país conhece pouco quer da sua situação, quer da situação de terceiros, como a Grécia.

Em 2010, no discurso de Ano Novo, Cavaco Silva avisou para a “a situação explosiva” de Portugal. Depois veio dizer que a situação é pior do que ele próprio antecipou. Se nem ele sabia, imagine-se o comum dos mortais, cujo silêncio nem latão vale. Mas garante o Presidente que a situação lusa é bem diferente da Grécia. E diz que quem, por cá, compara ambos, é por não saber bem o que se passa por lá.

O que o Presidente se esqueceu é que quem pôs Portugal e Grécia lado a lado foram os que nos governaram. E Cavaco Silva também governou em tempo de vacas obesas alimentadas a fundos comunitários. Não foram os portugueses que criaram uma sigla para se juntarem aos irmãos pobres do sul. São os ricos que olham para nós e para a Grécia, companheiros de fado trágico, como os porcos (PIIGS), a quem juntam a Itália, a Irlanda e a Espanha.

Mas o que mais me incomoda não é dizerem que os portugueses não conhecem bem a situação da Grécia. É a insinuação constante, até de Belém, de que são inconscientes do estado a que isto, por cá, chegou. Que é sempre pior do que as nossas piores expectativas.

O que é que está escondido para além da compreensão dos portugueses? As contas estão feitas (e refeitas e raramente acertam o alvo), percebeu-se que se gastou mais do que se podia, fez-se parecerias público-privadas ruinosas e agora vende-se ao desbarato o património do Estado que dava lucro para fazer face ao desvario. O país sabe isto e sabe que está a pagar um banco falido por gente que era próxima do Presidente da República. O país também sabe da lista de empregados políticos a quem é preciso arranjar lugares aqui e além e que impedem optimizar uma engrenagem cheia de boys. Sabem da permissividade dos Governos da República que anos a fio ser vergaram aos caprichos de Alberto João Jardim e agora põe o seu ar mais surpreendido pelo buraco da Madeira.

Os portugueses sabem disto tudo e sabem mais só não sabem como sair daqui. E era bom que o Chefe de Estado desse uma achega.

O Presidente da República diz que a situação é sempre pior. Apocalíptica, portanto. E é por isso que aguardo com expectativa o discurso de entrada em 2013 de Cavaco Silva. Das duas uma: Ou vai dizer que isto explodiu e nós nem demos conta ou que tanto se calou, que é uma espécie de galinha dos silêncios de ouro que vai salvar Portugal.