A solidariedade está viva e sem vergonha. Vimo-la por estes dias, dando resposta inequívoca aos múltiplos apelos, muitos deles desesperados, para que os nossos mais frágeis não passem fome, nem percam a dignidade humana.

A vontade de dar venceu a crise, a inveja mesquinha e as declarações infelizes. Vimos pelos supermercados crianças com listas na mão, a contar as moedas necessárias para garantir o cabaz de sobrevivência. Vimos gente com salários de miséria a encher o cesto de caridade. Vimos os armazéns repletos de dádivas, mas também de voluntários. Mas também vimos quem mais tem a equacionar ajudas, a perder-se em teorias sobre a forma como se dá e até a questionar a mediatização das campanhas de recolhas de alimentos.

Há quem conteste o que julga ser o reles exibicionismo à custa da desgraça alheia. Há quem duvide do altruísmo das instituições, da generosidade dos voluntários e da eficácia da ajuda alimentar. Há quem note haver aproveitamento comercial das marcas que aderem às campanhas. Há quem suspeite da multiplicação de peditórios, sobretudo quando partem de entidades cuja missão seria a de garantir fartura, mas que desterram milhões de euros em caprichos. É que de repente todos pedem alimentos, mesmo os que deviam lutar diariamente para que estes nunca faltassem à mesa das famílias mais carenciadas.

Os reparos são legítimos, apesar de ridículos perante um drama sem precedentes, a carecer de intervenção permanente. Se há tanta gente a pedir é sinal que há uma multidão com fome e outra tanta teimosamente distante do problema. E se há tanta a gente a dar, mesmo a ganhar menos, é porque percebeu ser o último e único recurso para todos quantos deixaram de ter pão na mesa, confiança nas soluções prometidas e esperança no dia seguinte.

Cabe agora às instituições não desperdiçar as toneladas de generosidade colectiva. Chegou a hora de dar com critério, de não recusar ajuda a quem realmente precisa, de não abusar da burocracia, de não deixar estragar produtos, de não alimentar protagonismos sem nexo, de não usar os pobres como escudo e de recuperar credibilidade perdida. Só assim nunca nos fartaremos de dar por uma boa causa.

P.S. – Para os que gostam de dar sem dar nas vistas, para os que gostam de dar em permanência, a campanha de recolha de alimentos não se esgotou nos supermercados. Por exemplo, o Banco Alimentar Contra a Fome na Madeira disponibiliza ainda, até 31 de Dezembro, a possibilidade de doar online em www.alimentestaideia.net.