Escrever um artigo no dia de Natal não é fácil. Para mim o Natal ainda é alegria, afecto, partilha e sobretudo família. Sempre gostei da Festa do Natal. Mesmo em alturas de grande privação e pobreza, no Natal tínhamos sempre coisas diferentes para comer e roupa nova para estrear. Ainda recordo a alegria que foi ganhar o primeiro subsídio de Natal, só possível depois do 25 de Abril de 1974. Antes os patrões davam uma "gorjeta" de Natal conforme as preferências que tinham em relação aos seus trabalhadores, nunca sabíamos quanto e se íamos receber alguma coisa no Natal. Quando passou a ser um direito passamos a fazer planos que passavam quase sempre por comprar roupa e sapatos novos e presentear os nossos familiares e amigos mais próximos. Nos primeiros anos muita gente comprava os electrodomésticos que faltavam aproveitando o dinheiro extra para tapar as faltas que existiam em casa. Com o subsídio de Natal fazíamos a economia girar. Era uma alegria para todos. Os que compravam e os que vendiam. Fazia parte da festa. Era uma conquista dos novos tempos que agora estes malfeitores que estão no Governo acham que é um luxo e que nunca deveríamos ter tido este direito. Acreditem que nunca senti tanta raiva como a que sinto quando oiço os argumentos, mais do que fascistas, desta gente sem escrúpulos que não podem ver as pessoas terem acesso às coisas só possíveis com o 25 de Abril e com a luta de quem trabalhava para ter direito a uma vida melhor e mais digna. Ouvir estes governantes da direita revanchista falar contra o Estado Social e contra os direitos conquistados nas últimas décadas é um tormento que dói até ao mais profundo do nosso ser. Esta gente nunca sentiu o que era esperar pelo fim do mês para poder contar os tostões para pagar as contas da água, luz, gás, etc…. Não sabem o que foi a alegria das pessoas poderem ter direito ao serviço de saúde e ensino mais alargado para os filhos e a serem donos das suas próprias casas. A terem o seu próprio meio de transporte. A terem televisão a cores. A comerem e vestirem melhor. Eles já nasceram em berço de ouro que a maioria de nós nunca teve e por isso "cantam de alto" como se fossem os nossos donos e senhores dizendo que temos que ser mais pobres, e que, o que tivemos, nunca o deveríamos ter. O que nós nunca deveríamos ter era esta gente horrível a nos governar. Já tivemos que ser pobres devido à ditadura fascista, não merecíamos ter que voltar atrás na história dos nossos direitos conquistados com tanta alegria empenho e luta. Mas ainda estamos a tempo de fazer novamente a nossa história girar a nosso favor tirando esta escória do poder o mais depressa possível. Ficar à espera que eles façam o trabalho sujo até ao fim, como parece ser a posição de alguns, é muito grave, é partir do princípio do quanto pior melhor. Pior do que já está e vai ficar em 2013 é recuar décadas de conquistas de direitos humanos que já foram estabelecidos na Declaração Universal em 1948 e que em Portugal só entraram em vigor depois de 1974. Os nossos filhos e os nossos netos não podem ter uma vida pior do que a nossa. Isso é contranatura, é aceitar que a vida volte para trás. Temos que nos unir, velhos e novos, de todas as categorias profissionais, de todos os sectores e rejeitar estas políticas exigindo eleições antecipadas antes que nos levem o resto que ainda temos. Temos que exigir aos que se candidatarem compromissos concretos com os nossos direitos. Temos que saber usar a arma do nosso voto para pôr fim a este caminho para que o Natal volte realmente a ser NATAL!
Guida Vieira