'Entroikado', eis a líder da corrida a "palavra do ano" 2012. Atrás dela, 'desemprego', 'solidariedade' e 'bosão'. Tem lógica. A receita da 'troika' não está a conter o avanço do desemprego. Perante a desprotecção social crescente, muitos dos que caem em tal desgraça bem precisam de solidariedade. Como lá fora a vida continua, cientistas anunciaram a descoberta do 'bosão de Higgs', conhecido por 'partícula de Deus', tida como fundamental para perceber como funciona o Universo. As dez palavras sujeitas a votação são escolhidas por uma equipa de linguistas da Porto Editora com base em critérios como "frequência de uso" ou "relevância". Se pudesse fazer uma lista pessoal, enquanto arrumo a mala para viajar até São Vicente, começaria pela palavra 'desprestado'. 'Desprestado', no madeirense aprendido na infância, quer dizer 'sem préstimo'. Só a tenho aplicado a políticos, mas parece-me adequado alargar o seu uso ao ano que agora termina. Até ando, como se diz aí, alcançada com o que tenho visto. Já antes andava, é verdade, só que agora mais. Os jornais falam de casais que adiam a parentalidade em nome de uma estabilidade que não chega, de grávidas sem consultas de vigilância por falta de dinheiro para transporte, de mães que dão leite de vaca aos bebés por não terem como pagar leite em pó, de crianças a chegar às aulas em jejum, de crianças internadas nos hospitais com sinais de fome, de pais a recusar recomendações médicas por incapacidade de pagar a medicação ou a dieta de que os filhos precisam, de casais que adiam a separação por impossibilidade de sustentar duas casas, de crianças agredidas por pais descontrolados pelo desemprego e por esse convívio forçado… Onde isto já vai. E o "enorme aumento de impostos" está a bater à porta. E os quatro mil milhões de euros ainda nem foram cortados. Não é por acaso que foram os moçambicanos e não os portugueses que inventaram a palavra 'sofrência', mistura de sofrimento com paciência. Por mais que haja quem recorra à retórica do "melhor povo do mundo", o que nós queremos mesmo é parar a corrida para o abismo e viver com dignidade. No ano passado, a palavra 'austeridade' relegou a 'esperança' para segundo lugar. Este ano, inventámos um palavrão. Nem é bom tentar adivinhar a palavra de 2013. Prefiro revelar que acabo de receber uma mensagem de boas festas e feliz ano novo que cita o Espinoza: "Não há esperança sem medo, nem medo sem esperança". Para que o medo não extermine a esperança que me resta, já pedi encarecidamente aos meus amigos que me contassem qualquer coisa boa de 2012.
Ana Cristina Pereira