No dia um de Janeiro de 1974, o Bispo de Nampula , V. Pinto fez uma homilia com o título « Repensar a Guerra » . Eis um pequeno trecho : «Ouvi-me uma vez ainda, homens que chegastes ao limiar do novo ano de 1974. (…) Eu quero falar-vos uma vez mais de paz. (…) A paz é algo que se deve não apenas manter mas produzir, e produzir a partir da verdade, da justiça do amor e da liberdade: a partir da consciência política do homem. Não é, por conseguinte , compatível com a «ordem» à custa da verdade, da justiça, do amor e da liberdade; não é repressão, não é medo, não é silêncio, não é morte. A paz é o homem, e o homem é o coração da paz. Daqui a necessidade urgente de tomar o homem a sério se quisermos seriamente a paz. E não apenas o homem sem nome, distante , desconhecido, mas o homem daqui e de hoje o homem que (…) sofre , há quase dez anos, a violência da guerra e que certamente deseja a paz. (…) Já o Profeta Ezequiel se insurgia contra os falsos profetas que, enganando o povo, afirmavam que tudo ia bem, quando tudo corria mal ( EZ.13.10.16)». Três meses depois foi expulso de Moçambique, com onze sacerdotes que escreveram o «Imperativo de Consciência ». Eram acusados de traidores à Pátria! De regresso a Nampula, quando havia os exageros da Frelimo, continuava a defender o povo. Perguntou Samora a V. Pinto : Porquê é que você que é Bispo, quando vem falar comigo, nunca fala de Deus nem da religião, mas do Povo, da sua defesa, dos seus direitos e da sua dignidade? O Bispo respondeu-lhe: Um deus que precisasse da minha defesa seria um deus que não é DEUS . Deus não precisa que O defendam. Os seres humanos sim. Há 40 anos, estava em Moçambique onde dentro das forças armadas lutava contra a guerra que matou 8290 militares e milhares de patriotas africanos. Hoje, na Madeira, uma terra com desemprego, fome, miséria, emigração , de prepotência política, de medo, continuo a luta contra os falsos profetas.
Dírio Ramos, Vereador do PCP na CMF