A festa é uma presença constante e marcante nas nossas vidas. Afinal, não se diz que a vida é uma festa ou que uma festa vale uma vida? A festa faz-se sempre presente, seja de modo directo, seja de modo indirecto, na existência humana. Todavia, é também uma presença paradoxal, isto é, uma espécie de hóspede não convidado que irrompe pela casa, trazendo, aliás como é próprio da festa, a des-ordem, de modo a não se saber muito bem o que fazer com ela, como tratá-la. Desde logo, convém referir que não podemos hoje ver a festa nem como um mero divertimento das chamadas classes populares, e, confundindo-se com esta ideia, a sobrevivência de certos arcaísmos tradicionais, nem como uma realidade congelada no tempo e reduzida a uma espécie em vias de extinção, a um objecto eminentemente exótico que é o foco da atenção dos coleccionadores. A festa é, antes de mais nada e acima de tudo, um ato colectivo extra-ordinário, extra-temporal e extra-lógico. Significa dizer que a condição da festa é dada pela confluência destes três elementos fundamentais, a saber: um grupo de pessoas em estado de exaltação, de efervescência e de fusão colectiva que consagra o seu encontro a alguém ou a alguma coisa e, que, procedendo dessa forma, liberta-se das amarras da temporalidade e da lógica da utilidade do quotidiano. A festa instaura e constitui uma outra forma de experienciar a vida em comunidade, marcada pelo lúdico, pela alegria, pela exaltação das emoções. É um momento importante de convívio e de participação de todos que se constitui como uma ocasião privilegiada de reforço da vivência em comunidade. A festa possui, portanto, um forte elemento diferenciador que é dado pelo facto de referir-se a um objecto "sagrado" ou "sacralizado", embora tenha também necessidade de comportamentos "profanos". Parece ser necessário um pretexto, tornado ocasião, para que a festa aconteça: é preciso algo para celebrar. Ora, estes são os dias da FESTA. E esta é, de facto, a palavra adequada para verdadeiramente exprimir a grandeza e a densidade da grande festa cristã que é o Natal (a última festa das grandes festas cristãs a nascer, provavelmente por volta de 335, em Roma). É um momento particularmente forte de vivência da alegria. E quando falamos da Festa como alegria, estamos a falar da verdadeira alegria cristã que se afasta completamente do sentido de expressão egoista do indivíduo ou da comunidade. As expressões da alegria cristã manifestam exteriormente a gratidão para com Deus, pelas "obras salvíficas" que fez no passado, que cumpre no presente e que projecta no futuro. Exprime, portanto, sempre a fidelidade de Deus e a atitude de confiança e gratidão da humanidade. Deste modo, a alegria como afecto fundamental corresponde à felicidade e transcende cada vez mais o seu sentido terreno para tornar-se sinal de salvação que se aproxima, que já começou, mas que ainda está por concluir de modo definitivo. Esta alegria vivida neste período festivo não pode ser apenas sinal de agradecimento e de confiança em Deus, que vem sempre em socorro do seu povo e liberta-o da opressão, mas exprime a felicidade pela salvação já recebida pelo Menino nascido em Belém. A alegria da Festa está totalmente ligada à pessoa desse Menino e à salvação oferecida por ele. A alegria torna-se, então, uma das atitudes características da Festa, expressão da experiência de tal salvação e sinal de esperança capaz de ultrapassar qualquer sofrimento presente. No passado, a Festa estava sempre relacionada com o Menino Jesus. Hoje, muitas vezes, o Aniversariante é posto fora de cena. A Festa tem para nós o seu verdadeiro sentido quando olhamos para Deus que em vez de nos vender ilusões, nos dá de graça o seu amor fazendo com que o seu Filho assumisse a nossa natureza e nos valorizasse. Ele entrega-nos Jesus como presente e por isso fazemos Festa.

Marco Gomes