Lembro-me da Avó Leonor com muita frequência, sobretudo agora que vejo esta embrulhada em que se transformou o caso do Atalaia. Sei que a Avó não teve cuidados de enfermagem, nem viveu os últimos anos num hotel. Mas também sei que morreu acompanhada pelos seus num misto de obrigação dos mais novos e de respeito pela dignidade dos mais velhos. Era assim que se vivia em sociedade quando ainda não se sabia o que era isso das políticas sociais. Não me parece que esta embrulhada do Atalaia tenha tido esse cuidado e respeito para com os idosos. As falhas de gestão, os casos estranhos, as justas greves dos trabalhadores, mostram uma sucessão de esquemas onde os mais velhos apareciam sempre no ‘rabo da lancha’ dos interesses de uma instituição que deveria ter nos idosos o seu principal plano de acção. Curiosamente, as entidades públicas que cedo deveriam intervir assobiaram para o lado e perante prolongadas denúncias, optaram pelo quentinho das mãos nos bolsos. Estranha opção que obrigou, nos últimos dias, a uma atabalhoada reacção. O costume. Mas mais do que cingir este problema ao caso do Atalaia, parece importante que alguém com responsabilidades e poder para tal faça, rapidamente, uma reflexão profunda sobre os cuidados com a terceira idade. Não é mais possível fingir que não se vê o problema que nos entra pela casa dentro a cada dia que passa. Já quase todos percebemos que não estamos preparados para tratar dos nossos idosos. A sociedade que nos calhou em sorte não está para aí virada. Os filhos precisam de atenção, os pais precisam de tempo para produzir como nunca e os avós vão perdendo a sua verdadeira importância numa cadeia familiar onde nunca foram tão necessários como agora. Resultado: vivemos um tempo de quase forçada ingratidão. Por um lado, as jovens famílias precisam cada vez mais do apoio, a todos os níveis, dos avós; por outro, essas famílias não estão preparadas para cuidar desses mesmos avós quando eles ficam debilitados. Tudo isto traz-nos para o centro de um debate de que nos temos esquivado de uma forma geral. Afinal, como tencionamos nós ajudar quem já nos ajudou durante décadas? A maior parte não saberá, alguns nem querem saber. Uns e outros são a prova de um falhanço completo daquilo a que alguém chamou de políticas e de governo social. Balelas. A triste realidade é que não sabemos como tratar dignamente de quem fez de nós o que somos hoje. Para o bem e para o mal. O debate de que falava deve começar pelo reconhecimento da importância dos mais velhos, do respeito por eles e pela garantia de dignidade a que todos têm direito. Façamos isto primeiro e depois podemos discutir sobre modelos, conjunturas, crises, dificuldades, planos, estratégias e tudo o mais. Para já, são precisas garantias urgentes de respeito e dignidade. E isso, de tão importante que é, deveria ocupar com prioridade a agenda de quem tem responsabilidades políticas no âmbito dos assuntos sociais, de forma transversal. Bom Natal.