Menos de dois anos decorridos após ter surgido a notícia de que Hugo Chavez se encontrava doente, o ainda Presidente da Republica Bolivariana da Venezuela já foi submetido, em Cuba, a quatro intervenções cirúrgicas. Cirurgias essas crescentemente mais melindrosas o que dá a ideia do estado em que se acha.. A última delas envolveu complicações inesperadas, com uma hemorragia debelada a muito custo e uma infecção respiratória oportunista que colocaram em risco a vida do Presidente. Ultrapassada a fase mais critica não pode dizer-se que Chavez, com todo o cotejo de acidentes de saúde que soma nestes tempos mais recentes, se prepare para abordar a chegada do ano de 2013 em forma. Por aí passa efectivamente o aspecto mais surpreendente: é que Chavez fez-se reeleger recentemente para a presidência da Venezuela por um novo mandato destinado a durar até 2019. Sendo esta temeridade que justific alguma reflexão. È aqui oportuno invocar o exemplo de George Pompidou e de François Miterrand, dois ex-Presidentes franceses que tiveram de lidar com a notícia da sua própria doença quando se encontravam no exercício da presidência. O caso de Pompidou assumiu contornos mais dramáticos, pois apenas teve conhecimento de que se encontrava doente depois de se ter recandidatado á presidência quando já não tinha consequentemente mais margem de recuo. Para não fragilizar a sua posição usou de grande descrição na forma como lidou com a situação, nunca tendo tornado público o seu estado de saúde, mas tudo tendo feito por cumprir com as suas obrigações enquanto esteve no Eliseu. E de tal modo o fez que a notícia da sua doença, que pouco precedeu a da sua morte, apanhou a França desprevenida. Com Miterrand as coisas passaram-se de maneira um tanto diferente ou não fosse Miterrand um homem de muitos segredos. Mas qualquer deles procurou lidar com a circunstancia - a sua própria circunstancia - de uma forma discreta, colocando sempre no topo de todas as prioridades o interesse da França. Exemplos estes que têm pouco que ver com o que ora se passa com Chavez. A grande preocupação que Chavez tem evidenciado desde que é pública a ocorrência da sua doença passa por perpetuar o "chavismo" para além dele próprio. O que, convenhamos, não parece ser o mais importante para a Venezuela. Chavez foi uma circunstancia, mas a história da Venezuela não começa nem acaba com Chavez, e não se afigura sério condicionar o futuro conforme ele procura fazê-lo. É verdade que foi eleito para cumprir um mandato para o qual apenas se acha previsto que seja empossado no próximo dia 10 de Janeiro. Após tomar posse e dependendo da forma como se apresentar o seu estado de saúde, ou tem condições para governar ou terá que ser respeitada a Constituição. Tudo isto sem embargo de se reconhecer que a forma como tem vindo a gerir a sua intervenção não se mostra a mais recomendável. É que ao recandidatar-se ultimamente para mais este mandato, Chavez tinha perfeita consciência de qual era o seu estado de saúde bem como de que se não mostrava recomendável a sua reeleição dado o seu muito fragilizado estado. Não obstante isso, recandidatou-se e venceu o seu opositor, Capriles de seu nome. Já depois de reeleito, o seu estado de saúde agudizou-se, tendo sido submetido a uma quarta intervenção cirúrgica a um cancro na região pélvica que o vem atormentando de há um tempo a esta parte. Antes de ter sido objecto de tal intervenção e num momento em que já era conhecida a precariedade do seu estado fez campanha por Nicolás Maduro, o seu Vice-Presidente, a quem avalizou insistentemente como seu sucessor. Naturalmente que Chavez tem perfeita consciência do peso que tem na sociedade venezuelana e sabe quanto vale a sua recomendação de voto. Sabe que tem incondicionais seguidores. Sabe que dado o seu estado de saúde se apresenta fácil fazer chantagem emocional apelando ao apoio a Maduro, que num passe de mágica como só na América do Sul se mostra possível, foi catapultado de obscuro camionista a Vice-Presidente. De tudo isso Chaves tem consciência. E por a ter pediu ao eleitorado que apoiasse Maduro, tendo perfeita noção de que para os "chavistas" de todas as horas é difícil recusar a satisfação de uma vontade a quem se encontra na situação em que ele se acha. A questão está em saber se ao assim agir Chavez está a servir os interesses da Venezuela e dos venezuelanos. E não parece estar a fazê-lo. Não o fez desde logo quando contra todas as evidências se recandidatou num momento em que se mostrava já muito duvidoso que dispusesse de condições físicas para levar o mandato a bom termo. O decurso do tempo não tem contribuído para esclarecer as duvidas mas para adensá-las ao ponto de se mostrar cada vez mais duvidoso que Chaves se encontre em situação de tomar posse e de poder concluir o mandato para que foi eleito. E se tal não ocorrer vão os venezuelanos ser governados por um Presidente que não elegeram? Poderá dizer-se que na história não seria a primeira vez que tal sucederia. Com Johnson, no pós-Kenedy, sucedeu tal. Mas com Chaves mostrava-se perfeitamente evitável.

Carlos Sequeira