Só ontem me apercebi de que estamos a menos de duas semanas do dia de natal. Eu, que sempre adorei esta época, que sempre esperei por ela como uma criança, que sempre me deliciei com a preparação de cada minuto que a antecede, que, inclusive, já escrevi nestas páginas o quanto me inspirava e fazia esquecer as agruras da vida, eu, que sou uma soma de tudo isto, só ontem tomei consciência de que o natal já chegara. E este facto entristeceu-me tanto quanto me revoltou, porque, sem eu dar por isso, entendi que alguém me roubara o natal. Fê-lo passar despercebido aos meus olhos. Roubou-me o prazer de senti-lo e, pior do que tudo, roubou-me o condão da metamorfose que esta época sempre operou em mim, transformando-me, nem que fosse por apenas quinze dias, numa pessoa melhor. Na verdade, hoje até me sinto uma pessoa pior do que há um ano. Menos tolerante, menos paciente, menos solidária. Amarga, sobretudo. Não tenho pachorra para fazer a árvore de natal nem para fazer bolos de mel e muito menos broas. Prendas? Também não há paciência. Só me apetece deitar no colo da minha mãe e deixar-me lá ficar até que venham dias melhores e eu volte a ser o que era, uma mulher sempre à espera do natal. Tenho saudades de mim e ontem apercebi-me disso. Tenho saudades da descontração de outrora, do luxo de poder ser fútil de quando em vez, de fazer planos a curto e médio prazos, de acreditar nos outros... Tudo se foi, roubaram-me tudo. E por isso estou cada vez mais revoltada e amarga. É claro que tenho tentado dar a volta. Juro que tenho. Ontem, por exemplo, depois de reparar no calendário, dei um giro pelo Funchal em busca do natal. Comecei pela baixa, percorri rua a rua. Só encontrei iluminação e gente de nariz colado às montras a desejar o que não pode ter. Mas não desisti. O natal, pensei eu, é muito mais do que fazer ou, melhor, não poder fazer compras. Procurei, então, o bálsamo para a minha descrença por outros caminhos. Tentei o altruísmo. Não o meu, porque, já o disse, este ano não me sinto lá muito benemérita. Procurei o dos outros para ver se me inspirava. Em vão, já que, além de ficar a saber que muitos desses outros estão ainda mais deprimidos do que eu, constatei que os poucos que o não estão devem tal proeza ao sucesso que alcançaram em labores de altruísmo duvidoso, pelo menos para mim. Veja-se, a título de ilustração, a recente satisfação da direção regional dos Assuntos Fiscais por não só ter atingido como superado o objetivo traçado para 2012 relativamente à cobrança coerciva de dívidas fiscais e parafiscais. Nada mais, nada menos do que, em números redondos, 32 milhões de euros, mais 700 mil do que previra, cobrados a quem, de certeza, já teve melhores dias para os pagar. A façanha, que por ser alcançada numa "conjuntura económica e financeira menos favorável" enche de orgulho a DRAF, deveu-se, assumiu esta publicamente, ao "empenho", à "dedicação" e à "competência" dos seus colaboradores. Ao seu "altruísmo", acrescento eu, atendendo a que, conforme sublinhou a entidade, a meta alcançada foi uma "forma de atenuar a injustiça e a desigualdade fiscais decorrentes do incumprimento que importa desestimular e reprimir". Eu, sinceramente, não me senti, nem sinto, menos injustiçada com o "altruísmo" da DRAF. Talvez até me sinta mais, pois o tal "empenho", a tal "dedicação", a tal "competência" não estavam lá quando a mesma DRAF reteve indevidamente, durante longos meses, o meu reembolso do IRS do ano transato ou, citando-a, desta "conjuntura económica e financeira menos favorável". Não há, portanto, espírito natalício que me pegue. Um Grinch chamado governo roubou-mo, sob a desculpa de uma perversa austeridade que ataca, sobretudo, gente como eu. Gente que não tem muito nem pouco, mas que, pelo andar da carruagem, vai ficar sem nada. Nunca como hoje a ficção me pareceu tão real. O país tornou-se numa espécie de Quem-lândia, onde um Grinch, mais verde de inveja e maquiavélico do que o original, tanto conspirou para me roubar o natal que finalmente o conseguiu. O pior é que, se o Grinch do Dr. Seuss volta atrás e se redime do mal que fez, o da nossa história não procura a redenção, mas promete antes fechar o natal a sete chaves nos próximos tempos. E, no meio disto tudo, não há herói nem heroína que nos valha, porque agora, afinal, para ser Grinch, basta apenas ser governo.

Eker Sommer