Ventura Garcês podia ter apresentado a proposta do Plano e Orçamento para 2013, na abertura do debate no Parlamento, de várias formas, com maior ou menor pragmatismo, mas saiu-nos um vendedor de banha de cobra, um fiel depositário da farsa governativa e discípulo do chefe do Executivo, esse mestre na omissão da verdade e especialista em legitimar-se através de atestados de menoridade intelectual lançados assim ao “povo superior”.

Só a cegueira intelectual pode aceitar que este Orçamento “não será socialmente cego” como vaticinou Ventura Garcês. A proposta ainda nem tinha nascido e a Assembleia Legislativa da Madeira, orgão máximo desta Autonomia ausente, já dava sinais de cegueira social. Basta ver a fome cega dos deputados do PSD que se uniram para ‘chumbar’ uma proposta de redução de 30% do ‘Jackpot’ de financiamento aos partidos, recusando dar um sinal de solidariedade. O esforço "não será socialmente cego” mas os cidadãos madeirenses não deixam de ser condenados a pagar os devaneios do sobreendividamento público com todos os impostos existentes à face desta terra basáltica, aos quais acresce outras taxas inventadas com uma criatividade de lata para sacar mais algum dinheiro, sobrando para nós os encargos que o Governo Regional deixou de assumir com a educação dos nossos filhos e com a saúde dos nossos pais.

Sobra-nos esta banha de cobra, feita de calotes do Governo Regional que, este ano, já nos custou 44,5 milhões de euros só em juros e comissões de dívidas a bancos e empresas prestadoras de serviços. Uma banha banhada na gordura da despesa pública, avaliada em 1,6 mil milhões de euros, onde só as funções sociais perdem peso e a receita fiscal, sendo colossal, nem chega para a engorda, tal é o estado de insustentabilidade económica e financeira do Governo da Madeira. Como podem exigir tantos sacrifícios em nome do bem colectivo e da salvação das contas públicas quando são incapazes de corrigir erros de gestão que até saltam à vista de tão óbvios que são. O Jornal da Madeira é o exemplo mais paradigmático. Será esta a "racionalização de recursos" que Garcês apregoava ontem no Parlamento? O ‘brinquinho’ de Jardim, este jornal de um homem só, já custou 50 milhões de euros sem retorno a mais de 260 mil contribuintes. É porventura o mais caro panfleto de venda de banha de cobra do mundo.

P.S.: A popular pomada de banha de cobra foi o logro mais bem conservado ao longo de vários séculos. Atingiu o seu auge nos períodos conturbados das grandes epidemias que aterrorizavam os povos na Europa, mas a sabedoria popular acabou por transformá-la no paradigma da ineficácia e do desengano. A História repete-se, também noutros contextos.