O povo, no imediato, não tem sempre razão mas a sabedoria popular acumulada revela-nos a experiência empírica em frases que nos dizem quase tudo. "Rompe-se o saco à força de querer enchê-lo"? É verdade. E o "saco" está cada vez mais cheio. O discurso de Alberto João Jardim no jantar de Natal da família (?) social-democrata, no passado sábado, é disso exemplo. "Ele a dar-lhe e a burra a fugir". Como é possível manter o mesmo registo de soberania saloia, reivindicativa de "outros caminhos" (cheirinho à ameaça de sempre) perante a atual situação vivida na região? Palavra que não entendo. E julgo que a população deixou de perceber. As palavras estão gastas. Apetece dizer ao presidente do governo, por amor de deus, acorde! A Madeira não aguenta continuar neste colete de forças sem uma solução à vista. Não sentir medo, é pedir muito. Não há perspetivas de futuro. E não basta injetar frases feitas, criada nos tempos das vacas gordas, que o cenário se altera. A ideia de que é preciso votar PSD nas próximas autárquicas, ganhar as onze câmaras municipais e respetivas juntas, para ganhar força perante o governo central e ditar as regras do jogo é propaganda barata e pura demagogia. Os problemas graves da Madeira não se resolvem pelo peso da cor partidária. Pode ganhar tudo mas tudo irá ficar na mesma. E a tendência é agravar-se. A mania de enfiar o lixo para debaixo do tapete ou empurrar as notícias más com a barriga já deu resultados negativos. Pode continuar a fazer o discurso de sempre mas "a burra está a fugir-lhe". Onde ficou a velha máxima de quem paga, manda? Será que não entendeu que as plateias estão cada vez menos galvanizadas e que batem palmas por descargo de consciência? Estão à deriva. É esse desencargo que assusta porque levados por uma miragem que há muito se esfumou são incapazes, porque amestrados pela rédea curta, de analisar o que realmente se passou e passa neste arquipélago onde acontece tudo até a maldita febre do dengue. Se andasse pela rua iria perceber o que dizem as pessoas, o que sentem. Estão assustadas, sim. Estão com medo, sim. Mas alguém acredita que essa angústia se esvai com o discurso ouvido naquele jantar? Não. Esta semana, durante a discussão do plano e orçamento, vai-lhes ser vendido um cenário utópico. Apesar dos contextos macroeconómicos desfavoráveis, nacional e europeu, o governo de Alberto João Jardim projetou uma evolução do PIB regional superior à nacional quando a crise na região já atingiu setores como o turismo, zona franca, redução drástica do investimento público, taxa de desemprego mais elevada que a média do país, e quando o serviço da dívida é superior às despesas com as funções económicas em 5,2 pontos percentuais, representando 22,3% do total da despesa estimada para 2013. Tendo ainda presente a incerteza da fundamentação do cenário macro, o défice pode ser bastante superior a 126,8 milhões de euros. Por outro lado, o défice oficial é calculado na base de um valor de despesas mais baixo (1,5 mil milhões de euros) do que o estimado no documento. A estimativa do PIB nunca é neutra. A sua evolução tem efeitos na criação da riqueza, emprego, etc. Mas no caso concreto do orçamento da Madeira a influência do PIB repercute-se diretamente nas estimativas das receitas fiscais da região. Melhores perspetivas de crescimento do PIB implicam, portanto, mais receitas estimadas. A sua não concretização significa que as receitas fiscais estão empoladas, repetindo-se a situação de orçamentos anteriores. Este é um grande risco do orçamento da Madeira para o próximo ano. Mas como diz o povo, "ao que erra perdoa-se uma vez, mas não três".

Lília Bernardes - Jornalista DN nacional, na Madeira