O medo paralisa, inibe o pensamento. Retira-nos do nosso espaço de conforto e instaura a suspeita, desencadeando em nós mecanismos primitivos de defesa que nos impedem a lucidez e a capacidade de discernimento. Castra-nos ao mesmo tempo que se torna senhor das nossas vidas, transformando-nos em autómatos resignados e previsíveis. A máxima popular, aliás, do mais vale o mal conhecido do que o bem por conhecer é suficientemente elucidativa desta força monstruosa que o medo exerce nos nossos subconscientes, impelindo-nos à inação consciente e, por conseguinte, à petrificação perante a mudança e perante tudo o que implique aventura. O medo é assim. Sempre foi e sempre será assim. E nós, madeirenses, somos por natureza um povo medroso. Não há como o negar. Temos medo de tudo, principalmente daquilo que implica protagonismo e iniciativa como seja reclamar, comprometer-se, investir e arriscar. Ainda há dias, por exemplo, um amigo confidenciava-me que andava de cabeça perdida a pensar numa proposta de trabalho extra que lhe tinham feito e que lhe renderia algumas, poucas, centenas de euros por mês. Nada de especial, é certo, mas um verdadeiro achado nos tempos que correm, considerei eu. Mas ele não ia nessa. Tenho medo de que não me paguem, desabafava então, dilacerado pelo dilema de precisar do trabalho e não ter coragem de assumir a possibilidade de se poder dar mal. Enfim, dizia eu, somos mesmo assim, medrosos. Temos medo até de ter medo. Talvez porque vivemos numa ilha, talvez porque atravessamos tempos de desconfiança generalizada, talvez porque, verdade seja dita, ainda não atingimos o patamar de povo esclarecido, condição fundamental para ajudar a vencer o medo em estados de direito, onde, sabemo-lo bem, só com inteligência e sólida formação de valores se consegue sobreviver com dignidade. Falta-nos, na verdade, abertura. Paralisamos perante o perigo, seja real, seja mera suposição. Quando ele espreita, fazemo-nos da cor da cal e fugimos ou, em maior rigor, ficamos como estamos - prostrados, abúlicos e, sobretudo, preferindo a mediocridade que já conhecemos à incerteza de poder ficar melhor. O conformismo, irmão do medo, está-nos, de facto, no sangue. E é por isso que os últimos tempos têm sido particularmente traumáticos, pois andamos todos de calças na mão, à espreita da desgraça, desejando ser conduzidos pelos acontecimentos em vez de sermos nós, os próprios, agentes dos acontecimentos. Somos bons a dizer mal, isso sim, a apontar o dedo, mas desde que não haja consequências, pois, a havê-las, melhor é o silêncio e ficar quieto. Ninguém gosta de dar o primeiro passo. É o esperar para ver o que é que acontece ou, então, se o outro avança em primeiro lugar. Pensei nisto na última semana, depois de saber os resultados das eleições internas do PSD/Madeira. Pensei não porque goste de política - muito menos da que por cá se faz - mas porque o episódio foi pródigo em mostrar os efeitos do medo, mais concretamente do medo da mudança no sentido mais radical do termo ou não estivesse em causa o fim de uma era e o início de outra ou, se preferirmos, o fim de um paradigma de fazer política - o da brejeirice e do insulto gratuito que só tem guarida onde o povo prima ainda pela iliteracia - e o surgimento de um outro ainda por definir. Dos resultados em questão, para mim, ficou a evidência de que, por muito sugestiva que tenha sido a votação, o medo foi o vencedor do escrutínio porque, mais uma vez, tudo ficou como estava e como está há quase 40 anos. A vontade de mudança parece clara, a falta de coragem para efetivá-la também. Ficou-se, mais uma vez, no enclave tipicamente português do "quase lá", aguardando, mais uma vez também, que sejam os acontecimentos a gerar os acontecimentos. Deixou-se por conta da contingência ou do devir histórico aquilo que poderia ser mudado por iniciativa própria, de forma consciente e sem polémicas de maior porque, afinal, a mudança faz parte de qualquer democracia saudável. Escolher é um direito, falhar uma possibilidade sempre em aberto. Não restam dúvidas, pelo menos para mim, de que a palavra mudança não tem entrada no dicionário madeirense, porque, lá está, antes o mal conhecido do que o bem por conhecer. O medo leva sempre a melhor, isto junto não dos astutos que, perante a incerteza do futuro, se guardam em intervenções cautelosas até ver para onde é que as coisas pendem, mas daqueles que, mesmo reconhecendo que algo ou alguém não está bem, ficam imóveis a assistir ao que acontece, à espera, repito-o, de que os acontecimentos gerem novos acontecimentos. Eles, os medrosos, é que não os podem gerar. Por isso, parafraseando o poeta, o mostrengo continua a voar à roda da nau. E fá-lo-á até que cada um de nós seja homem do leme capaz de perceber que, enquanto o medo não for vencido, tudo ficará exatamente como está. Para o nosso mal e o dos nossos filhos.

Eker Sommer