
A avaliar pela forma como a natureza é tratada, a betão e compressor, a Madeira parece viver em plena idade média do antropocentrismo. É lamentável e paradoxal que, num arquipélago tão vulnerável aos riscos de deslizamentos e de enxurradas, prevaleça aquela ideia de que o ser humano é uma entidade transcendente que molda a natureza como plasticina, servindo-se dela, sem margem para recuos.
Não espanta que este pensamento, moderno só de nome, tenha nascido no seio da política e engordado com o capitalismo que vende ao mundo uma perspectiva enviesada de progresso. Tratamos o mar e o litoral como caixotes de lixo, a natureza como mercadoria e as ribeiras como matéria-prima pronta para ser transformada, a pretexto da protecção civil, do desenvolvimento, do progresso. Não se medem as consequências das alterações que se imprimem na paisagem ou como ocupamos o território desenfreadamente. É tudo feito a favor de um perigoso bem-estar das populações, num deixa andar que rende votos.
Quando acontecem as desgraças, o fenómeno é natural, tão natural quanto o desenvolvimento é sustentável. Diz-se que os efeitos não podiam ser minorados, que tudo foi feito para prevenir. A culpa é, portanto, estrangeira. A responsabilidade é daquela reles massa de ar quente que resolveu descarregar por aqui um elevado volume de água precipitável. Pode ser influência do Il Niño, das alterações climáticas, do degelo, das condições meteorológicas adversas. Do que quiser. É um castigo divino ou, simplesmente, um fenómeno natural agravado pela orografia acentuada que o Senhor nos deparou. Só não é de quem governa. E porque o mestre do desenvolvimento sustentável não manda no tempo, está inocente, percebeu?
Ainda está para nascer o homem que levará São Pedro a julgamento. Mas cá na ilha, não faltam dedos a apontar no sentido dos céus e vozes que se apressam a constituir como arguido o tempo, sacudindo a água do capote de quem, abrigado das chuvas, continua a alimentar a fantasia de entidade detentora de um poder sobrenatural sobre todas as coisas, visíveis e invisíveis. Depois de ouvir o Ministério Público concluir que todas as mortes causadas pelas enxurradas de 20 de Fevereiro de 2010 resultaram de "causa natural" e que a investigação não encontrou indícios que permitam imputar a morte de qualquer das 48 vítimas a acto humano, voluntário ou meramente negligente, percebi que a Justiça está realmente cega. Cega sem venda.