Apesar da importância que pode ter em todo o mundo, a eleição de Barack Obama é, principalmente, um acontecimento americano Apesar da importância que pode ter em todo o mundo, a eleição de Barack Obama é, principalmente, um acontecimento americano. Acontecimento em que aparentemente se enfrentam duas visões do mundo. De um lado uma América citadina, liberal, cosmopolita e anti-sexista, tendo para a resolução dos problemas internacionais uma visão multilateral, privilegiando a resolução dos problemas e conflitos internacionais pela negociação e consenso, com o reforço do papel das instituições internacionais como a ONU. Do outro, temos uma América mais provinciana, conservadora, muitas vezes racista e sexista, que vê ameaças ao poderio americano em todo o lado e não hesita em as resolver unilateralmente, apoiada num poderio militar cujo orçamento corresponde aproximadamente a 42% do orçamento global que todos os países do mundo gastam na defesa. Economicamente parece não haver muita diferença entre republicanos e democratas, pois ambos os campos acreditam na economia de mercado. No entanto, enquanto os republicanos acreditam na liberdade dos mercados como lei fundamental da economia, em que tudo se resolve através da acção da livre iniciativa, seja na saúde, na educação, na assistência social, apesar das terríveis consequências que isso teve recentemente, com a crise financeira desencadeada em 2008 com a falência do Lehman Brothers e a questão do subprime, os democratas acreditam que é possível mitigar essa lei inexorável, fazendo intervir mais o estado como regulador da vida económica, principalmente no apoio dos mais desprotegidos, com reformas na saúde e políticas de apoio ao emprego. Ou seja, o Estado americano com Obama será mais pesado e provavelmente mais justo e com Mitt Romney mais ligeiro e ainda mais desigual socialmente. A herança de Bush deve ter vincado o seu peso, pois apesar de a memória dos povos ser curta, os americanos não esquecem esse legado terrível, que, centrado numa mentira, atirou parte do mundo unilateralmente para uma guerra no Iraque e no Afeganistão, em que só há perdedores, mas que tornou todo o mundo mais perigoso, e para os Estados Unidos resultou em perdas colossais e 6.500 mortes. Mas, insistimos, esta foi uma eleição americana. E apesar de a Europa gostar de ver Obama outra vez na Presidência, pois ele adquiriu uma vasta experiência e uma maior sensibilidade para as questões internacionais e mais próxima da visão europeia, Obama será presidente de um estado, onde apesar de tudo é o complexo industrial militar que comanda a vida económica. Provavelmente Guantánamo e outras promessas serão novamente esquecidas e os mesmos que ajudaram Bush a desregular a economia continuarão a ter a vida do país económico nas suas mãos. Mas mesmo nos Estados Unidos se tem consciência dos graves problemas com que toda a humanidade se debate quanto ao esgotamento de recursos, ao aumento da população, às alterações climáticas e aos resultados funestos de uma globalização que privilegiou os lucros das empresas à vida das populações. Os mercados esqueceram muito depressa as pessoas, porque nelas só viram consumidores e estes diminuíram drasticamente com a crise financeira, tendo esta situação repercussões no consumo, diminuindo a produção e, por essa via, aumentando o desemprego. Lá como cá. A crise, durante a campanha, fez ambos os candidatos aproximarem-se do centro, moderando as suas propostas mais radicais. Numa terra de emigrantes, em que que o seu modelo de vida se centra na figura do self-made man, que vê na religião o seu suporte existencial, na liberdade as visões multifacetadas da sua personalidade, no pragmatismo a essência do seu espírito empreendedor, no sonho americano e no mito do seu destino de exportar a democracia os lemas da sua condição de cidadania, a eleição decide-se nas diferenças como se interpretam esses elementos centrais da cultura americana. (1) Por isso não admira que os Estados Unidos da América estejam divididos ao meio. O complexo sistema político americano, com os permanentes contrapesos que institui entre o Presidente, os Estados, o Senado, a Câmara dos Representantes e os Tribunais, faz com que, afinal, as diferenças expressas na campanha sejam muito atenuadas na prática. Pouco realmente os acaba por dividir. Mas o Mundo e nós com ele estaremos mais seguros com Obama. Enquanto com os republicanos, os americanos, muito à filme de cowboys, disparem primeiro e pensem depois, com Obama, embora também disparem, veja-se Bin Laden, eles pensam primeiro. E sempre é bom ter alguém que sabe o que é subir a pulso a corda da vida, lá, onde se decide a vida de quase toda a gente neste mundo. Francisco Faria Paulino 7 de Novembro de 2012 (1) – Sciences Humaines - Nov-Dez 2012, pags. 14 e 15. Francisco Faria Paulino
Apesar da importância que pode ter em todo o mundo, a eleição de Barack Obama é, principalmente, um acontecimento americano
Apesar da importância que pode ter em todo o mundo, a eleição de Barack Obama é, principalmente, um acontecimento americano.
Acontecimento em que aparentemente se enfrentam duas visões do mundo.
De um lado uma América citadina, liberal, cosmopolita e anti-sexista, tendo para a resolução dos problemas internacionais uma visão multilateral, privilegiando a resolução dos problemas e conflitos internacionais pela negociação e consenso, com o reforço do papel das instituições internacionais como a ONU.
Do outro, temos uma América mais provinciana, conservadora, muitas vezes racista e sexista, que vê ameaças ao poderio americano em todo o lado e não hesita em as resolver unilateralmente, apoiada num poderio militar cujo orçamento corresponde aproximadamente a 42% do orçamento global que todos os países do mundo gastam na defesa.
Economicamente parece não haver muita diferença entre republicanos e democratas, pois ambos os campos acreditam na economia de mercado.
No entanto, enquanto os republicanos acreditam na liberdade dos mercados como lei fundamental da economia, em que tudo se resolve através da acção da livre iniciativa, seja na saúde, na educação, na assistência social, apesar das terríveis consequências que isso teve recentemente, com a crise financeira desencadeada em 2008 com a falência do Lehman Brothers e a questão do subprime, os democratas acreditam que é possível mitigar essa lei inexorável, fazendo intervir mais o estado como regulador da vida económica, principalmente no apoio dos mais desprotegidos, com reformas na saúde e políticas de apoio ao emprego.
Ou seja, o Estado americano com Obama será mais pesado e provavelmente mais justo e com Mitt Romney mais ligeiro e ainda mais desigual socialmente.
A herança de Bush deve ter vincado o seu peso, pois apesar de a memória dos povos ser curta, os americanos não esquecem esse legado terrível, que, centrado numa mentira, atirou parte do mundo unilateralmente para uma guerra no Iraque e no Afeganistão, em que só há perdedores, mas que tornou todo o mundo mais perigoso, e para os Estados Unidos resultou em perdas colossais e 6.500 mortes.
Mas, insistimos, esta foi uma eleição americana.
E apesar de a Europa gostar de ver Obama outra vez na Presidência, pois ele adquiriu uma vasta experiência e uma maior sensibilidade para as questões internacionais e mais próxima da visão europeia, Obama será presidente de um estado, onde apesar de tudo é o complexo industrial militar que comanda a vida económica.
Provavelmente Guantánamo e outras promessas serão novamente esquecidas e os mesmos que ajudaram Bush a desregular a economia continuarão a ter a vida do país económico nas suas mãos.
Mas mesmo nos Estados Unidos se tem consciência dos graves problemas com que toda a humanidade se debate quanto ao esgotamento de recursos, ao aumento da população, às alterações climáticas e aos resultados funestos de uma globalização que privilegiou os lucros das empresas à vida das populações.
Os mercados esqueceram muito depressa as pessoas, porque nelas só viram consumidores e estes diminuíram drasticamente com a crise financeira, tendo esta situação repercussões no consumo, diminuindo a produção e, por essa via, aumentando o desemprego.
Lá como cá.
A crise, durante a campanha, fez ambos os candidatos aproximarem-se do centro, moderando as suas propostas mais radicais.
Numa terra de emigrantes, em que que o seu modelo de vida se centra na figura do self-made man, que vê na religião o seu suporte existencial, na liberdade as visões multifacetadas da sua personalidade, no pragmatismo a essência do seu espírito empreendedor, no sonho americano e no mito do seu destino de exportar a democracia os lemas da sua condição de cidadania, a eleição decide-se nas diferenças como se interpretam esses elementos centrais da cultura americana. (1)
Por isso não admira que os Estados Unidos da América estejam divididos ao meio.
O complexo sistema político americano, com os permanentes contrapesos que institui entre o Presidente, os Estados, o Senado, a Câmara dos Representantes e os Tribunais, faz com que, afinal, as diferenças expressas na campanha sejam muito atenuadas na prática. Pouco realmente os acaba por dividir.
Mas o Mundo e nós com ele estaremos mais seguros com Obama.
Enquanto com os republicanos, os americanos, muito à filme de cowboys, disparem primeiro e pensem depois, com Obama, embora também disparem, veja-se Bin Laden, eles pensam primeiro.
E sempre é bom ter alguém que sabe o que é subir a pulso a corda da vida, lá, onde se decide a vida de quase toda a gente neste mundo.
Francisco Faria Paulino 7 de Novembro de 2012 (1) – Sciences Humaines - Nov-Dez 2012, pags. 14 e 15.
Francisco Faria Paulino