Quase todas as religiões creem que as ações humanas da terra serão julgadas no Além. Esta convicção sempre atemorizou os povos, dada a incerteza pelo desfecho desse julgamento. Deus Osíris No antigo Egito, Osíris era o deus que julgava os mortos. O coração do defunto era colocado num dos pratos da balança, no outro pousava uma pena de avestruz. Se o coração pesasse mais do que a pena, significava que a vida não foi justa e, como castigo, seria devorado por um monstro. Se o coração fosse mais leve, gozaria a felicidade eterna. O pavor deste julgamento era enorme. Quem podia prever que o seu coração seria mais leve do que a pena de avestruz? Juízo final A Bíblia nos dá conta de um Juízo Final, após a ressurreição dos mortos, no qual todos serão julgados pelas suas obras (Apoc.20,12-15). Quanto aos injustos "irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna … Portanto, não os temais; porque nada há encoberto que não haja de revelar-se, nem oculto que não haja de saber-se." (Mateus 25,46 e 10,26). Qual o crente que não teme este julgamento final? Diabo da capela Sistina Enquanto Miguel Ângelo pintava a capela Sistina, um padre do Vaticano, constantemente, o criticava por desenhar figuras nuas no teto. Diz-se que, na pintura do Juízo Final, a figura do Diabo ficou com a cara desse padre, como vingança pelo facto de ter atormentado o pintor. A justiça divina e implacável, retratada na parede, afinal, também, serviu para fazer a "justiça" terrena. Fantasma de Pilsen No Museu dos fantasmas, em Pilsen, República Checa, entre os diversos diabos, fantasmas e monstros, encontra-se, também, uma figura do fantasma da Justiça. Trata-se de uma escultura formada com peças metálicas de ferro-velho. No braço esquerdo, bem no alto, segura uma balança, a qual tem um dos braços desequilibrados. As opiniões sobre esta obra são diversas. Alguns dizem que se trata do fantasma que persegue os criminosos. Mas, dizem outros, persegue, de igual modo, as vítimas, pois, estas receiam que os criminosos não sejam punidos. Os próprios juízes, também, temem que a justiça não cumpra o seu papel. Há um ditado que reflete esse espírito: "os juízes vão para o inferno às costas das testemunhas". Afinal, todos temem o fantasma da (in)justiça. Barqueiro Caronte Segundo a mitologia grega, após a morte, as almas são transportadas numa barca, conduzida por Caronte, através do rio Estige até Hades, terra dos mortos. Aqui as almas são julgadas: as boas gozam da felicidade eterna, enquanto as más têm como destino o inferno (local lamacento nas profundezas da terra). No entanto, no transporte para Hades, as almas devem pagar uma moeda ao barqueiro. É por isso que, antes do funeral, é colocada uma moeda na boca ou nos olhos do defunto. Caso este não leve consigo dinheiro para a viagem, a alma fica a vaguear pelo mundo, durante, pelo menos, um século ou para sempre. Esta é uma possível explicação para a existência de fantasmas na terra. Almas penadas Segundo a crença popular, as almas penadas são espíritos de pessoas falecidas, que regressam a este mundo, sob diversas formas, para tentar concluir compromissos que não realizaram em vida. Caso não os cumpram, correm o risco de serem penalizadas no Juízo Final. Como se vê, o fantasma da (in)justiça, a todos persegue, não apenas na terra mas, principalmente, no Além. João Luís Gonçalves, Procurador da República no Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé
João Luís Gonçalves