Henrique Pontes Leça De seu nome completo Fernão Manuel Homem de Gouveia Favila Vieira, nascido a 13 de Dezembro de 1930 no Funchal.

Acompanhava-me na idade e acompanhámo-nos, durante 72 anos, numa grande amizade que nunca ficou manchada por qualquer desentendimento pessoal, nem sequer político. Era um dos meus grandes amigos de infância.

Deixou- nos no passado Sábado, depois de muito tempo de doença que suportou com estoica coragem física e, sobretudo, cristã. Acompanhado sempre, com a mesma estoicidade e insuperável dedicação, por sua Esposa Maria João. Foram, cada um, no seu sofrimento, um herói e uma heroína.

Conhecemo-nos no dia do exame de admissão ao Liceu, em 1940, no edifício onde ainda funcionava o Liceu Jaime Moniz, na Rua do Bispo, hoje Museu de Arte Sacra. Frequentámos o Liceu sempre na mesma turma, até ao sexto ano. Não pudemos matricular-nos na Faculdade de Direito de Lisboa no mesmo ano porque, a seguir aos exames daquele período lectivo, caiu doente e teve que interromper os seus estudos.

O Fernão Favila - era assim tratado e chamado pelos amigos - tal como acontecera no Liceu, frequentou, com idêntica distinção, a Faculdade de Direito. Concorreu, de seguida, ao Ministério nos Negócios Estrangeiros onde fez uma prestação notável como diplomata, tanto no Departamento de Estado como no estrangeiro. Teve o seu primeiro posto no Rio de Janeiro. E, entremeado com as estadias obrigatórias no Ministério, representou Portugal em Madagáscar, em Luanda como Cônsul Geral - em intervenções muito melindrosas, a seguir à descolonização, e por via das quais granjeou elevada estima e consideração da parte do Ministro Melo Antunes.

Seguiu-se Durban, Genebra. E, promovido ao posto de Embaixador, representou o Estado Português em Cuba - outro posto de grande responsabilidade e idêntico melindre. Aposentou-se como Embaixador em Praga, onde conheceu e manteve estreita ligação pessoal com o Presidente da República Vaclav Havel. E onde, num desempenho notável, acompanhou a visita de Estado do Presidente Mário Soares.

É com um misto de muita saudade, grande amizade e grande tristeza e emoção que redijo estas notas. O Embaixador Favila Vieira - como era conhecido em Portugal e no estrangeiro - merecia que alguém fizesse sair o seu nome da modéstia e do propositado apagamento com que sempre pautou a sua vida diplomática. E, até, enaltecer a coragem com que lutou contra as resistências encontradas após o 25 de Abril, por via das suas convicções políticas radicadas no regime anterior. Mas que soube ultrapassar, com notável perspicácia, inteligência, fidalguia e esmeradíssima educação que eram seu timbre. Foi assim que, nos corredores do Palácio das Necessidades - sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa - reagia àqueles que por ele passavam com infeliz arrogância. Respondia-lhes, elegantemente, de cabeça bem erguida e com a fidalguia e educação que lhe vinham do berço.

A nossa amizade, de tantos anos, impunha-me o dever desta pública homenagem, de muita admiração e saudade. A justiça impunha-me o dever de dar a conhecer aos nossos conterrâneos quem foi este Homem que tanto prestigiou o nosso país em Portugal e no estrangeiro. Era detentor de várias condecorações, nacionais e estrangeiras, que conquistou mercê da sua notável carreira diplomática.

É este o meu grande abraço de despedida. Até sempre meu Querido Amigo.