Os poetas são eternos. Escrevem palavras e desenham perguntas nas cabeças dos que pensam. Poemas e desenhos de palavras dispersas, influências que reescrevem palavras novas. Um mundo novo. Se o poeta é aquele que cria, então, "um poeta é um mundo encerrado num homem", segundo Victor Hugo. Para que serve um poeta? Hélia bebe de Höderlin: "Para quê, perguntou ele, para que servem / Os poetas em tempo de indigência?" (Hélia Correia, A Terceira Miséria, 2012). Os poetas falam o indizível. Falam, escrevendo com outras vozes de quem pode ser muitos outros. A mão, essa, é sempre a mesma. O instrumento com que se crava a madeira com letras, num labor pormenorizado e microscópico da matéria-prima: as palavras. Lembra o 'micro-rigor' do trabalho oficinal do escritor de que fala Carlos de Oliveira. Os poetas desenham as palavras que ninguém pensa, mas que, no entanto, fazem pensar no que nós podíamos ter dito, porque "na leitura revivemos as nossas tentações de ser poeta. Todo o leitor um pouco apaixonado pela leitura alimenta e recalca. Um desejo de ser escritor" (Bachelard, A Poética do Espaço, 1989). Para que serve o poeta? Propõe reflexões, inquietações, interrogações, procuras em tempos de indigência e ruínas. O poeta não perece, eterniza, imortalizando as palavras como um pintor ou fotógrafo que capta a imagem ou pinta um quadro. O poeta impede que o mundo adormeça nas respostas. O poeta é eterno enquanto perguntas indizíveis houver. Hélia, Pina, O'Neill, Florbela, Sophia, Pessoa... pessoas.
Fernanda Castro - Colaboradora da AAUMa