Ao ouvir há poucos dias o primeiro-ministro afirmar que "tinha legitimidade para impor ao país as medidas que considerasse necessárias" (citação de memória),fiquei perplexo porque as atitudes do dito senhor contrariavam em tudo o conceito que eu tinha sobre o significado de legitimidade. Se calhar, pensei eu,sem que eu me tenha apercebido, o conceito sofreu qualquer alteração,eventualmente por força do acordo ortográfico, ou outra qualquer razão que me tivesse escapado. Para dissipar a dúvida procurei a palavra, não em um, mas em dois dicionários, porque um era pré acordo ortográfico e poderia estar obsoleto. Apesarde diferentes, os dicionários apresentamdefiniçõesmuitos semelhantes, que são em síntese, as seguintes: "Legitimidade, s. f. Qualidade do que é legítimo, do que está conforme à lei, à justiça, à razão, e às regras estabelecidas, lícito." Mais adiante "Ilação ou conclusão lógica". Senti-me reconfortado, pois o meu conceito ainda é válido, só que não é minimamente coincidente com as palavras e a práxis do nosso primeiro-ministro. Recomendo-lhe também a consulta do dicionário para não dizer asneiras. A fazer fé na definição dos dicionários, Passos Coelho tem legitimidade para não aumentar impostos, para pagar a metade do 13º mês surripiada aos funcionários públicos, para contrariar as medidas que rejeitou no PEC IV. Foi isso que ele disse que faria se fosse eleito, foi por isso que os portugueses, fartos de José Sócrates, o escolheram, foi para isso que o legitimaram. Não é legítimo que agora alegue legitimidade para fazer exatamente o oposto do prometido. Esta desfaçatez (ou será legitimidade?) faz-me de algum recordar a esperteza daquele banqueiro que para pagar o banco que tinha comprado, passou um cheque sobre o próprio banco que comprara. Como comprou o banco, passou a ter a legitimidade de não o pagar ou de pô-lo a pagar-se a si mesmo. Ainda lhe sobrou "legitimidade" para, desrespeitando o compromisso que tinha estabelecido com o estado português, vendê-lo ao estrangeiro. Não é lícito PC alegar a situação efetivamente difícil do país para o destruir. Quando se candidatou, se conhecia a real situação nacional e prometeu o paraíso, mentiu, usou de má-fé e burlou deliberadamente os eleitores (a burla é crime e vai contra a lei), por isso não tem legitimidade para alegar legitimidade para destruir a vida de Portugal e dos portugueses. A alegação de não ter conhecimento prévio da real situação nacional, é no mínimo "alvar", ignorante e inconsciente. Em ambas as situações não é lícito que esteja a governar, é um logro, vá-se embora enquanto ainda há país. Haverá país para além de PC e seus pupilos ultraliberais. Precisamos de um líder, não duma Cassandra, necessitamos de alguém que galvanize o país, que faça as pessoas acreditarem que há um futuro, que há justiça e equidade, que os melhores de nós não tenham de se ir embora, que vale a pena fazer sacrifícios. Ao contrário, V. Ex.a aplica ao país a receita dos antigos cirurgiões/barbeiros: quando a pessoa estava fraca, faziam-lhe uma sangria e quanto mais fraca estava, mais a sangravam, mantendo tal como V. Ex.a que essa era a receita certa. O facto de que a maioria dos pacientes acabar no cemitério era puro acaso, porque a receita estava certa.No seu caso a receita é um pouco diferente mas com resultados semelhantes: mais do mesmo e em maior quantidade. Faço-lhe a justiça de não o eleger como o único responsável, porque antes de si, outros, da sua estirpe, muitos também da sua cor também tiveram "legitimidade" para os seus despautérios. Cavaco Silva, a troco de 700 milhões de contos por ano destruiu Pescas, a Agricultura e a Indústria. Deixámos de produzir o que comer, passámos a comprar os bens que anteriormente produzíamos. O país interior migrou para o litoral, mudança que V. Ex.a acentuou com as suas "reformas", pois acabar com as escolas, tribunais, juntas e hospitais, desertificará o interior, à toa, ad hoc, sem que haja uma ideia de país e da consequente organização administrativa e de serviços, ao sabor dos estados de alma ultraliberais dos seus ministros. Qual é a sua ideia de país? Não lhe conheço nenhuma. Será V. Ex.a uma espécie de D. Sancho I, o Povoador, ao contrário? Por sua vez o PR, que deveria ser o árbitro, que lhe deveria dizer que não é legítimo, que nãoestá conforme à lei, à justiça, à razão, e às regras estabelecidas, que não é lícito o que o V. Ex.a anda a fazer, está mais uma vez ausente em Pulo do Lobo. O que me parece cada vez mais legitimo é que as pessoas comecem a adotar atitudes de desobediência civil, como legítima defesa às agressões, opressões e saques a que insistente e persistentemente são sujeitos por si e pelo seu governo. Penso que V. Ex.a não corre o risco de ser demitido como deveria, penso que, como disse Eça de Queirós, "sairá com benzina porque é uma nódoa".
Hélder Melim