Há uns três anos, num doloroso processo de ruptura, decidi que não queria ser mais uma chata daquelas que chegam a esta altura do ano e só falam no Orçamento do Estado. Ia ser "normal", tão "normal" que até ia comprar uma caixa de maquilhagem e fazer um cursinho rápido. Não sei onde pára a caixa de maquilhagem. Tentei o mais que pude não voltar a falar de qualquer Orçamento do Estado, mas já não aguento mais. Desculpe lá, mas não consigo, é mais forte do que eu. As notícias repetem-se: receitas fiscais abaixo do previsto, contribuições para a Segurança Social em queda, despesas com o subsídio de desemprego em alta e o raio do défice sempre a aumentar. Dou por mim a concordar com figuras improváveis como Bagão Félix. "Esta receita pode gerar uma septicemia na economia", disse ele. Cada vez percebo menos. Ando a arrumar as dúvidas num bloguezito, na esperança de as ir esclarecendo. Dou-lhes número e tudo. Replico algumas aqui, correndo o risco de ser a rapariga mais chata do mundo. Talvez seja apropriado começar pela mais básica: por que diabo acordou o Governo com a troika um défice de 4,5% do Produto Interno Bruto em 2013, se nem o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, acredita que seja possível alcançá-lo? De tanto ouvir dizer que andámos a viver acima das nossas possibilidades, desenvolvi uma espécie de ladainha. Quem incentivou as reformas antecipadas? Quem jogou com os fundos das pensões? Quem aprovou obras desnecessárias? Quem não evitou as derrapagens? Quem nunca se fartou de encomendar estudos e pareceres a entidades externas? Quem deixou que se multiplicassem fundações, empresas e institutos públicos? Quem negociou as parcerias público-privadas? Pasmo ao perceber como tudo serve para apelar à demolição do Estado social, que mesmo incipiente faz com que as famílias poupem 29% do seu orçamento em serviços públicos como educação e saúde. Não tenho pachorra para a frase mil vezes repetida: "Não há alternativa". Ó diacho, se não há alternativa, para que serve o Governo? E, de imediato, sai-me a ladainha número dois. Quantas parcerias-público privadas foram renegociadas? Quantas entidades inúteis desapareceram do aparelho do Estado? Que esforços foram feitos para reduzir os juros da dívida pública? A descrença alastra pelo país e, mesmo atrás dela, o desespero. Isso é pior do que austeridade. Já tínhamos a segunda taxa de natalidade mais baixa do mundo, estamos a emigrar à força toda e o número de suicídios vem por aí acima. Às vezes, parece que desistimos de nós. Às vezes, parece que é isso que o Governo quer. Como é que se liga esta nossa democracia às nossas aspirações? Esta é a questão mais bicuda da minha lista. Acho que vou ali abaixo comprar um rímel ou assim.

Ana Cristina Pereira