O risco entrou nos nossos dias, está profundamente intrincado e configura-os de forma vincada, gerando estilhaços sociais desiguais. Se é verdade que não mais voltaremos para trás, pois esta "crise" é apenas mais um passo neste galope desenfreado, neste carrossel de imperativos e necessidades, é igualmente um erro pensarmos que já tudo está dito e sabido. Em algumas áreas é mesmo quase necessário recomeçar. O que há em excesso neste nosso ciclo de vida normal e quotidiana, que está a levar-nos ao descontrolo, ao não sentido e à loucura, são os fugitivos do pelotão. Iluminados, brilhantes, resplandecentes, carregados de soluções para os problemas dos outros e mesmo para problemas que já não existem. Na verdade, somos uma autêntica sociedade de fugitivos ao pelotão, em que os mais fracos e pobres ficaram e ficam, cada vez mais, para trás - e todos, quase tudo fizemos para que ficassem para trás, mesmo sem estarmos porventura a dar por isso. E, hoje, alimentamos o seu atraso. Daí a radicalidade e profundidade desta crise. São claros e veementes os sinais que se avolumam aos nossos olhos: a recessão que se instala sem prazo de saída, a economia que segue um rumo aparentemente descontrolado, o desemprego que cresce sem controlo, a falência de muitas ilusões transportadas e alimentadas pelo "Estado Social", o agravamento da pobreza, a fragmentação social brutal geradora de violência, a imediatez e o materialismo proclamados como modos de vida cada vez mais tidos por únicos, a "nova" providência estatal que enfraquece a criatividade empreendedora, o individualismo galopante que remete a solidariedade para um nível cada vez mais micro, o esgotamento dos recursos naturais que apontam para uma espécie de "vida sintética". Perante estes sinais que reduzem o humano e endeusam as coisas, temos dificuldade em encontrar o fio (o horizonte de sentido) que está diante dos nossos olhos. Estamos nas mãos de adivinhos, espécie de curandeiros e feiticeiros, vestidos com a pele de investidores, economistas, promotores do desenvolvimento social e urbano, especuladores sem rosto e sem ética que se escondem nas sombras dos muitos e poderosos interesses instalados na organização da Sociedade e no aparelho do Estado. Hoje, muitos cidadãos não são capazes de pensar a vida social e a própria experiência cívica sem terem presente como referencial quase único este papel central omnipresente e protetor do Estado. Esta espécie de "infantilização" e estatização das organizações sociais e dos cidadãos devasta o pensamento crítico, semeia a desconfiança, cataloga os projetos e as iniciativas, reforça a incompetência e a irresponsabilidade, cria e alimenta dependências, asfixia o tecido de entreajuda local, faz prevalecer a prepotência e a arrogância dos fugitivos do pelotão. É preciso recuar e perguntar com seriedade: quem é o construtor de todo o edifício social? Sabemos que a sociedade contém forças incríveis e capacidades adormecidas que precisam de ser convocadas e organizadas em torno de modos de organização social que ponham a render uma riqueza até agora muito escondida. Há uma grande disponibilidade social para a participação e existe uma enorme capacidade de inovação social que se pode e deve mobilizar, de modo autónomo e articulado, no sentido da economia ter de ser feita à medida das pessoas e não ao contrário. Definitivamente, o futuro não poderá ser uma mera continuação retocada do passado.
Marco Gomes