Foi o Engº. Belmiro de Azevedo quem disse, à distância já de alguns anos, disse não compreender como o futebol, sendo consensualmente considerado uma industria, apresenta sistemáticos prejuízos e não obstante subsiste. É efectivamente um fenómeno estranho só explicável pela circunstancia de nele a componente paixão se sobrepor á razão. Na verdade, nestes tempos em que a vida das empresas tem vindo a tornar-se crescentemente mais difícil levando a um recurso crescentemente mais utilizado que é o da redução de efectivos com consequências sociais devastadoras, com um número avassalador de empresas a porem termo á actividade com todo o cotejo de consequências sociais daí advenientes, o que ocorre nos mais variados ramos de actividade ao ponto de poder dizer-se ser este um problema que atravessa transversalmente a sociedade, constata-se que ocorrendo um numero não exactamente muito significativo de Clubes e de Sociedades Desportivas a evidenciaram dificuldades atinge uma dimensão preocupante o numero de empresas a cessarem a actividade. Evidencia esta realidade que, ao arrepio da observação produzida pelo Engº Belmiro de Azevedo faz tempo as coisas na área do Desporto apresentam uma maior sustentabilidade do que no plano empresarial? As evidências apontam num sentido diferente ao ponto de poder afirmar-se sem ponta de temeridade que são em relativamente pequeno numero os Clubes e Sociedades Desportivas que subsistem graças ao seu próprio esforço enquanto na actividade empresarial os agentes se bastam e são geridos com receitas provenientes do exercício da sua actividade. Esta ambivalência radica em aspectos que têm muito que ver com o lugar que tradicionalmente competiu á actividade desportiva em Portugal, a qual foi tradicionalmente encarada como uma forma de lazer e os Clubes como os agentes que a implementavam. Com o advento da Lei de Bases do Sistema Desportivo e depois com a publicação e entrada em vigor do Regime Jurídico das Sociedades Anónimas Desportivas operaram-se progressivas alterações neste domínio, as quais foram sendo implementadas primeiramente a medo e acompanhadas de grandes reservas e depois com progressiva confiança com a convicção de que aquele seria o caminho certo. O tempo entretanto decorrido a partir da publicação e implementação da Lei de Bases do Sistema Desportivo permite hoje uma análise desapaixonada daquilo que foram os méritos e deméritos do sistema então implementado e que correspondeu á desejada separação das águas da actividade desportiva em Portugal, com as organizações profissionais alinhadas de um lado e as não profissionais do outro. Mas procedido a esse alinhamento restava todo um trabalho que estava por fazer e que respeita á necessária reforma das próprias mentalidades. O que supõe tempo e espaço já que a simples publicação de um diploma legal por si só não opera milagres. Na verdade, por muito que as regras o não consintam a mentalidade reinante ainda é a de que os agentes do espectáculo desportivo, sejam eles Clubes sejam Sociedades Anónimas Desportivas, devem ser apoiados. Que é o mesmo que dizer ajudados, já que uns e outros se substituem aos poderes públicos na promoção de uma actividade cujo desenvolvimento ao Estado compete. Resta dizer a este propósito que a vocação do Estado não passa exactamente por financiar, nem directa nem indirectamente, o desporto profissional por muito que ele assegure a componente espectáculo associada á actividade desportiva. É que por muito pouco que se tenha em atenção tal aspecto, não nos podemos esquecer que o Desporto em Portugal bem como a actividade dos seus agentes remete para uma componente que é antes do mais pedagógica. O que ocorre no âmbito do Desporto, assumindo uma dimensão intra muros, reveste muitas das vezes um outro significado fora deles como consequência da vocação que o Desporto tem de tocar aspectos sociais que exorbitam muito das suas fronteiras. O ponto a que chegámos remete-nos para regras de conduta e para a necessidade da adopção de boas condutas e de boas práticas. Na verdade, compreende-se mal que Sociedades Anónimas Desportivas integradas em Federações dotadas de Utilidade Publica Desportiva, que constituem uma emanação do Estado, ajam com a falta de transparência que é infelizmente cada vez mais recorrente entre nós, assumindo compromissos que não cumprem, obrigações que não honram, com tal conduta contribuindo para inculcar a ideia por uns tantos perfilhada de que o futebol não é um mundo de gente séria. E é pena que assim aconteça. Sem prejuízo de aqui se aplicar o ensinamento que manda à mulher de César, sobre ser séria, parecê-lo igualmente.
Carlos Sequeira