Esta reflexão surge a propósito da publicação do mês de Outubro da revista “MONOCLE”, que dedica o seu número à lusofonia – “Generation Lusopfonia – Why Portuguese is the new language of power and trade?”. (Porque é que o Português é o novo idioma de poder e de negócios? O que é curioso, nesta publicação, é o facto de se apresentar a língua portuguesa como a língua da próxima década, considerando que na próxima década o espaço da lusofonia – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, constituirá um mercado fantástico de oportunidades. Todos os países vêm lá descritos, nenhum foi esquecido. O que é estranho é que sejam os ingleses a apresentar um trabalho tão pormenorizado sobre um espaço que, com saudade, consideramos nosso. O ensaio apresentado é de tal forma detalhado, que contempla uma análise feita país a país, entrevistas, as principais características culturais, as principais áreas de negócio e empresas, as áreas de desenvolvimento e a análise à maturação política e estabilidade social dos diferentes países; Este é um trabalho fantástico de apoio à juventude em geral e, neste particular, do Reino Unido. Chegam ao ponto de alertar, imagine-se, para o facto de todos os países da lusofonia possuírem costa; Assim, os assuntos relacionados com o mar devem ser considerados. Tudo isto é apresentado como um espaço de oportunidades, com cerca de 300 milhões de indivíduos, de modo a aconselhar os jovens ingleses, imagine-se, a aprender a língua portuguesa. E Nós? Que possuímos uma história conjunta, que dominamos a língua, que temos relações afetivas com todos esses países, que compreendemos as suas culturas, que mantemos laços comerciais, como olhamos para este campo de possibilidades? Normalmente queixamo-nos sempre que alguém encontra num destes países a sua possibilidade de emprego, olhando para essa situação não como uma oportunidade, mas como uma fatalidade. O que está em causa, e que é apresentado nesta edição da revista, é uma projeção para a próxima década, livre de preconceitos, mas cheia de possibilidades. Aquilo a que os ingleses chamam de mobilidade profissional e mercado de emprego, nós chamamos de emigração. O que eles chamam de expansão do conhecimento e criação de redes, nós chamamos de fuga de cérebros. Ou seja, à boa maneira portuguesa, procuramos sempre encontrar a dificuldade e não a solução. Somos incapazes de projetar-nos no futuro, limitamo-nos a constatar as dificuldades do presente. Nós fechamos cursos, porque o mercado de trabalho não oferece oportunidades, criando constrangimentos às universidades e aos seus docentes. Os ingleses estudam, criam e apontam as oportunidades, mantendo assim, a sua massa crítica, professores, investigadores e alunos nas suas universidades. E assim, procuram preparar uma geração (da lusofonia) para conquistar os desafios da próxima década. Nós reclamamos do investimento que o país faz na formação dos jovens, para depois os deixar sair. Se saem é porque têm qualidade e é esse o aspeto que deveríamos valorizar. Se experimentarmos não fazer esse investimento, veremos quanto nos vai custar, ao longo de uma vida, uma geração impreparada. Mas o nosso problema não é de hoje, e outros já o caracterizaram. No século dezassete,Diogo do Couto (1603) afirmava: “ A mesquinhez e falta de curiosidade desta nossa nação Portuguesa”. Um século mais tarde, a historiadora Mary Brearley apontava: “People too much averse from intellectual activity to question what they had learned”.(São pessoas demasiado adversas à atividade intelectual para questionar o que aprenderam). É esta nossa dificuldade de enquadrarmos um pensamento sobre o futuro que nos cria as dificuldades do presente. Não chega criar conhecimento. É necessário sistematizá-lo e utilizá-lo como fator de desenvolvimento. Um país que não prepara, as suas gerações para o contexto global, é um país com o futuro comprometido. Devemos perceber que não vamos conseguir ultrapassar as dificuldades que temos de enfrentar com conhecimentos dispersos e individualizados. Estes trouxeram-nos ao ponto em que estamos. Encontrar novas reflexões, novas metodologias, novos espaços de realização, só é possível com um conhecimento atualizado, ou seja, ampliando a rede e conetividade de conhecimentos. Como alguns autores têm referido “o intercâmbio de ideias e os contactos humanos são a verdadeira essência desta era”. Não importa a ocupação, o trabalho deverá ser pensado como uma grande rede social, onde podemos partilhar conhecimento. O emprego continuará a existir, mas não como o eixo central da carreira. A rede orientará o desenvolvimento profissional. “Não podemos imaginar o futuro do trabalho simplesmente extrapolando as experiências do passado”, afirma Lynda Gratton. Termino com uma expressão da própria revista: “o que é necessário é uma nova motivação”. Sejamos “Consumidores de experiências e não de coisas”.

Jorge Carvalho, Professor