Na edição de aniversário do DN, falei de João Sem Terra e de LIBERDADE. Aqueles curtos trezentos caracteres continham ideias e factos importantes para a Europa, e, para o mundo. Volto ao tema, para tornar claro aquilo que quis dizer. Recuemos ao fim séc. XII, princípio do XIII. Não queiramos opinar sobre aquela época com os olhos do séc. XXI. À época, a Europa Cristã lutava contra o inimigo externo - o Islão. Passados tantos sécs. podemos dizer que João Sem Terra é contemporâneo de Afonso Henriques. Naquele tempo, o poder real emanava de Deus. Logo as cabecinhas pensadoras dos reis tudo impunham sem que alguém lhes fosse à mão. Melhor dizendo, só Roma o fazia. Porfiaram muito os nossos homens para serem: REIS! Rei pela-se por uma boa briga. O nosso D. Afonso era apenas candidato e já batia na mãe! Brigou, João, com muita gente, Papa incluído, por causa da nomeação do arcebispo de Cantuária. Mandar, para João, era: detenções arbitrárias, pesados impostos e outros desmandos a que os Homens Livres (no séc. XIII era o mesmo que Homens Nobres. Aos servos da gleba ninguém ligava, só obedeciam e de bico calado) reagiram, impondo a el-rei, em 15/06/1215, um documento escrito que passou à História como Magna Carta. Ela acabava com as prerrogativas reais, protegia a VIDA e a LIBERDADE. Foi, primeiro, rejeitada pela Igreja que, mais tarde, veio aceitá-la. Ainda bem que o fez, evitou desculpas públicas como no caso da Inquisição. A limitação dos Poderes Reais foi o embrião do Parlamentarismo e das Liberdades como as entendemos hoje. Poderia a actual Europa ter adoptado o conceito de Ivan O Terrível, nas suas versões "modernas" com Hitler ou Estaline. Não o fez, aderiu à Magna Carta com os aperfeiçoamentos ocorridos nestes oito sécs. Esta é a História contida naqueles 300 caracteres. Elemento marcante da vida dos Povos, é a ocupação do território. Comprova-o, no nosso caso, o contrato de colonia factor determinante no relacionamento social dos nossos antepassados e, que ainda hoje se faz sentir. Os temerosos caseiros, durante sécs., submeteram-se às arbitrariedades do senhorio, temendo a expulsão das terras. É com este pano de fundo que em 1974 ancorou no Funchal a LIBERDADE da Magna Carta. Substituía a liberdade condicionada do Dr. Salazar, em todo o caso, melhor que a de Ivan, Hitler ou Estaline. Numa recente entrevista, ao DN, Virgílio Pereira, protagonista de vários arrufos no partido, reconheceu que houve militantes tratados com regras de liberdade dignas do PC. Assim sendo, a liberdade no partido, por arrastamento na sociedade, é mais à Ivan do que à Magna Carta. Dizem os médicos: mexa-se pela sua saúde! Com a liberdade é também assim, temos de exercê-la. Os Homens Livres da nossa sociedade, sucessores dos Homens Nobres do séc. XIII, não exercitaram a Liberdade como era seu dever. Sucumbiram ao espírito de colonos amedrontados face ao perigo de expulsão das terras. Entregaram-se ao contorcionismo político-circense onde exercer função política se confunde com o exercício de uma profissão liberal ou com negócios. Não servem, servem-se! A liberdade, como não podia deixar de ser, feneceu. Reduziram-na aos votos na hora certa, devidamente controlados pelos devotos da divindade terrena. Hoje, com todas as distorções introduzidas, como muito bem se ouve, vê e lê, avaliam-se carácteres. Aqueles que, em Liberdade, deviam ter-se assumido como defensores do Bem Comum, pelo medo, aceitaram a canga imposta pelo senhorio. Assim imolaram a Liberdade no altar da conta bancária. Os colonos deixavam-se humilhar para evitarem a fome. Agir, hoje, com essa mentalidade é coisa bem mais rentável. É a sobrevivência dourada. Daqui à votação por gratidão é um salto de pulga e a divindade merece-o! Avaliando carácteres, o senhorio esquece as recusas que recebeu dos que não se deixaram amedrontar. A todos quantos exigem respeito pelas Liberdades Individuais, dizendo não à prepotência, distingue-os com fabulações. Repete-as à exaustão para, pensa ele, ser credível. À Singapura do Atlântico não chegámos, mas do Haiti - com tirânico Papa Doc - estamos perto. Os tonton-macoute já se exercitam nos carros da polícia e amedrontam a imprensa livre. No JM tudo isto se branqueia ofendendo àqueles que, em Liberdade, desmascaram práticas totalitárias. Não fora o DN, donde voluntariamente debandaram as virgens ofendidas defensoras do pensamento único, na RAM não se poderia, por falta de informação isenta, formular opinião livre. O DN merece GRATIDÃO, e o JM a aceitação das desculpas públicas que, mais cedo que tarde, a diocese nos apresentará por todo o mal que aquele título nos causa.
Gaudêncio Figueira