A bola nunca se conforma; de pé-descalço, gaiata, revolta-se. Arma um pé-de-vento, uma borrasca e compra uma briga na esquina da área. Atira o estádio aos cornos da sorte; transforma-se, forma-se noutras formas com mais gomos menos gomos. É um vulcão; faz abanar as teorias mundo e tropeçar inocentes treinadores. Enche páginas com fotografias de corpo inteiro e títulos gordos, vermelhos. E sem o mínimo de perplexidade, porque um golo vale uma fortuna e faz fortunas redondas, respeitáveis que nem sequer se interrogam, nem entre dentes, nem entre nada. A bem ou a mal, a bola forçosamente tem de beijar a rede, num beijo possessivo nos lábios do golo, seja a que preço for ou custe os maços de notas que custar. Logo se confirma, sem rodeios, a vitória antecipada que serve à justa medida uns e outros; vitória acertada no balneário, à porta fechada, limpinha, sem razão para equívocos. Uma bola que sempre cai na armadilha das malhas que o futebol tece; futebol que tem aplausos, apupos e caretas das classes alta, média e baixa; que traz votos de todas as cores e veste com especial narcisismo a camisola n.º 10 da aristodemocracia que entremeia, na mesma equipa, sangue azul com sangue do povo. A culpa é sempre da bola: porque bateu na mão e diz que foi a mão que bateu nela. Por mais chuva que apanhe e por mais pontapés que leve da esquerda e da direita, «a bola - segundo Jean Giraudoux (ensaísta francês) - é na vida a coisa que mais escapa às leis da vida.» A justiça que julga se foi a mão se foi a bola quem matou o jogo não se discute; aceita-se «sem crítica nem exame». É um dogma; e também no futebol os dogmas não se questionam. São irrefutáveis, como os golos anulados.
Juvenal Xavier Jornalista