O écrã mudo; o plano escuro: fumo, fogo, pó e sombra sobre as praças. Para onde - para e por que - marcham tantos corpos? Silenciados (alguns), vencidos (todos), a sua é uma travessia sem fronteiras: Portugal, Espanha, Itália, Grécia, o mundo que a este caminhar se não alheia. Passo a passo caminham em pleno abismo: o futuro. Na minha memória ecoa "Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya", poema de Jorge de Sena datado de 25 de Junho de 1959 (escrito a partir do quadro "Três de Maio", de Goya, no qual o pintor representa o fuzilamento, em 1808, de cidadãos que se opuseram a Napoleão em Madrid). Não importa (neste instante) o tempo; não importa (por agora) o lugar; não importa (por excesso) cada uma das palavras inscritas ou ditas; não importa (porque imenso, incerto) o objecto da hostilidade. Importa-me aprender "que tudo é possível" (e talvez o futuro só possa ser dito em silêncio). Emudeço, ante o poema: "Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural. Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós. E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo." Devagar, revela-se-me a resposta à pergunta inicial: marcham por "um simples mundo (…) em que tudo seja permitido", a favor de "uma fiel dedicação à honra de estar vivo". Lutam por essa raridade a que se costumou chamar "justiça", num movimento que se toma por "liberdade". Caminham pelo direito ao desejo, ao prazer, à possibilidade de um futuro. Passo a passo, caminham a favor do amor, da fraternidade, da fidelidade, da esperança, da alegria, de "amanhã": "um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente". (…) Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas. (…) Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de uma classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência de haver cometido." Cada um daqueles corpos que marcha é "único", "livre", "diferente". Como Goya, "um pintor (…) que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor. Mas isto nada é, meus filhos." Ou tudo é: "acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la. É isto o que mais importa - essa alegria. Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá." Urgente é aprender que nada "pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor que fariam «amanhã». E, por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram." Com muito cuidado. Porque "nenhuma vez alguém está menos vivo".

Diana Pimentel