Tuquoque, Brute, fili mi? É a última frase pronunciada por Júlio César antes de, aos pés da estátua de Pompeia, em pleno Senado Romano, ter sucumbido assinado por 60 conjurados até então fieis ao seu governo, déspota e egocêntrico. A frase ficou gravada na História e na literatura como representando a reacção de quem se sente atraiçoado, dilacerado pela ingratidão de quem se serviu de si e dos seus proveitos. A traição em política é aliás tema de repetidas visitas ao devir dos homens que servem a causa pública. Salazar num discurso célebre, relembrava aos aspirantes à política que deviam ler a passagem bíblica da paixão de Cristo e em especial a negação de Pedro, que, quando confrontado com a prisão de Jesus, não só negou que comungava das suas ideias mas até que convivia com ele. Mas é evidente que essa qualificação de traição na política tem sempre duas leituras: numa é a quebra de lealdade, a demonstração do que há pior na natureza humana e que na res publica também se manifesta, às vezes, de forma tão estridente; na outra, ao acto aparente de traição se responde com a sua causa. Sem querer justificar os meios com a finalidade, como na morte de César, o filho Brutus tinha razões para romper a sua relação de serviço ao protector. Também na vida hodierna, já não com as facas afiadas do tempo romano, quando a desilusão é grande e impera o serviço à causa maior que é o bem comum, justifica-se esse afastamento que só injustamente se qualifica de traição. Os últimos acontecimentos regionais fizeram-me reflectir se de facto estaremos nós perante traições, como se acusam publicamente. Um antigo presidente da Assembleia Regional aceita ser mandatário de uma lista e é logo apelidado de traidor. A opção do Dr. Bruno Pereira de integrar uma das candidaturas cheirou a muitos como uma traição, aparentando uma ruptura com o presidente da câmara com quem, meses antes, foi pública uma estratégia de candidatura independente ao próximo mandato, se o partido a que pertencem optasse por outra pessoa. Não desconheço a diferença de um mandatário a uma candidatura para a suspensão de um cargo em funções muito importantes na Câmara. É irracional considerar aquele acto como traição ao actual Presidente da Câmara mas pergunto a mim mesmo se o Dr. Bruno manteria a mesma posição se o partido tivesse mantido a escolha de Sérgio Marques para candidato à CMF. Mas serão de facto actos de traição? Estou convicto que não e que resultam apenas de naturais reflexões, mais ou menos tácticas ou de fundo, sobre o melhor para agremiação onde se juntam ou até para as naturais ambições de cada um. A consideração ou o julgamento de que são actos de traição revela acima de tudo a forma pervertida como (não) se respeita o pensamento alheio, a divergência. A lealdade política na Madeira tem vindo a confundir-se com fidelidade canina. Em vez de uma relação de confiança alicerçada em objectivos políticos e no serviço à causa comum, os apoios entre nós julgam-se pela subserviência, pelo abanar de cabeça, pela acefalia perante os acontecimentos, como se o dever de lealdade seja estar calado até que o chefe indique o que devemos pensar e como! Prezo a lealdade e sou muito sensível a relações francas e cordatas entre os homens, sobretudo quando entre políticos e com responsabilidade. Mas julgo que também por aqui passa a transformação de que a Madeira carece: deixemo-nos de considerações filiais e de recriminações, com se os apoios políticos tivessem apenas como alimento a gratidão ou o reconhecimento! A verdadeira morte de César, como Shakespeare tentou demonstrar, não foi à traição de quem o protegeu mas foi a perda do bom senso, do equilíbrio, da justa medida. Não foram os filhos de César que o mataram ou que se passaram para o outro lado, mas foi a evidência de uma situação saturada que a causa comum impunha seu termo e que nem o discurso inflamado de Marco António conseguiu fazer sobreviver. A César faltou-lhe a visão de futuro que faz agregar multidões, não das que choravam pela sua morte, mas das que se alinhariam na caminhada em direcção ao futuro. Não espero nenhuns idos de Março neste Outono, mas esperaria que a frontalidade do pensamento e das opções não nos obrigasse a falar sobre traição.

Ricardo Vieira