No momento em que este texto está a ser escrito ainda decorre a votação para a eleição dos corpos sociais do Benfica. E independentemente de não serem aguardadas grandes surpresas, uma questão avulta que sobreleva de certo modo a de saber quem vai dirigir o Benfica durante o próximo mandato: fala-se da forma domo decorreu a campanha para a eleição dos novos órgãos dirigentes. A recandidatura de Luís Filipe Vieira poderia ter retirado algum ruído de fundo á campanha, já que é suposto que Vieira faça uma caminhada tranquila até á reeleição. E tudo se teria passado assim não fora a particular qualidade do candidato que se perfilou como opositor ao Presidente do Benfica. É que Rui Rangel é magistrado judicial. Tal circunstancia inibia-o de poder candidatar-se ás eleições e de defrontar Vieira? Um magistrado judicial não está limitado neste domínio por qualquer caputis diminutio que decorra da lei. Logo, tem capacidade eleitoral activa como qualquer outro cidadão. Tal como Vieira a tem. Vale recordar que esta questão já foi intensamente debatida em anteriores circunstancias. Isso aconteceu quando o Juiz Conselheiro Jesus Costa, agora jubilado, desempenhou relevantes funções no movimento associativo. Exercendo-as por forma a não abdicar do protagonismo que elas lhe conferiam. Coisa que não é do agrado de muitos, que entendem que um juiz, por mor das funções que exercita, tem por obrigação guardar uma grande reserva na atitude. Na verdade, a discussão desta questão não suscitou então unanimidades, prevalecendo, contudo, a ideia de que o decoro e a função social que está a um magistrado cometida recomendavam moderação. E, no limite, aconselhavam a que se não expusesse. O que provocou o surgimento de uma corrente mais radical que defendia dever o Conselho Superior da Magistratura intervir no sentido de inibir quem exercesse a magistratura judicial de ter ligações ao movimento associativo. Tal posição, pelo seu radicalismo, suscitava dificuldades de ordem constitucional, porquanto se traduzia na inibição de um cidadão exercer atribuições que eram aos demais cidadão consentidas. Razão por que nunca vingou. Vale a pena, contudo, atentar-se no que se passou na campanha para as eleições do Benfica, onde os insultos choveram de um lado como do outro das barricadas. De uma banda, os responsáveis em exercício ou uma parte deles qualifica Rangel de mentiroso. Do outro, Rangel esgrime com a ameaça dos tribunais quem se entregou á prática de tais excessos e o injuriou. Pelo meio avultaram ainda outro tipo de acusações que, nada dignificando um Clube com a grandeza e o prestigio do Benfica, têm o inevitável efeito de descrediblizar quem as assume. Pode dizer-se que aquilo que está a ocorrer com esta campanha não envolve propriamente novidade, pois representa um pouco o que acontece, senão com todas, com grande parte das campanhas. A diferença relevante entre esta e as outras reside no facto de um dos protagonistas desta campanha ser um magistrado judicial. Que nessa qualidade tem o dever de guardar reserva e de se não colocar em posições em que essa reserva possa perigar. Na verdade, a questão passa exactamente por isso. Dizendo de outro modo: não se trata necessariamente de impedir magistrados de se apresentarem a eleições para os corpos sociais dos Clubes a que são afectos, mas de cada um assumir a consciência de que existem comportamentos de risco e este é exactamente um deles. O Desporto e o futebol de uma forma muito particular, constituem um espaço onde as paixões andam á solta, sem respeito por regras nem por qualquer espécie de convenções. Quem anda lá sabe disso, tem bem consciência de se tratar de um espaço onde se respeitam poucas regras. Do mesmo modo que sabe que os excessos não escolhem momentos nem circunstancias. Nas últimas eleições que ocorreram no Sporting, Sérgio Abrantes Mendes desenvolveu uma campanha calma e pautada pelo respeito pelos adversários. Ao seu jeito. O facto de o ter feito e de se tratar de alguém que ganhou de há muito direito á respeitabilidade no universo leonino, não significa, necessariamente, que esteja a precato de quem, cultivando o destempero e a arruaça, o pudesse ter escolhido para alvo das suas frustrações. Não aconteceu tal. Mas a circunstancia de esse risco, ao menos potencialmente, existir, não o inibia de se apresentar a sufrágio para disputar um cargo. De forma diferente se passam as coisas quando, num espaço de risco como o é o futebol, com todos os seus excessos, as suas paixões e os seus desvarios, surge quem se põe a jeito. Os estragos que essa exposição ocasiona, individual como corporativamente, não são depois os tribunais que os vão seguramente remediar. É bem verdade que na vida quase tudo decorre de uma questão de bom sendo. Quando o bom senso existe!

Carlos Sequeira