A fazer fé nas palavras do Sr. Secretário Regional do Ambiente e dos Recursos Naturais, investiram-se, de dinheiros públicos (não sei se de proveniência comunitária, nacional ou regional, mas, certamente, públicos), na agricultura, 30 milhões de euros por ano, nos últimos 3 anos! Começo, desde já, por concordar que é necessário dotar a agricultura de investimentos públicos. Para, de certo modo, dinamizá-la e modernizá-la. E, de igual modo, pelos efeitos diretos que tem na preservação da nossa paisagem, um dos mais importantes ativos que temos para oferecer também aos que nos visitam. Mas, no que concerne a investimento de dinheiros públicos, bem escasso, como sabemos, outrossim, há que ser equitativo e razoável e, sobretudo, definir prioridades. A priori assumindo que não tenho qualquer competência no metier, pelas áreas de produção (quer no total, quer as das propriedades individuais), dimensão do mercado regional e dificuldades tremendas na exportação pela localização da Madeira e pelo preço, a agricultura será, julgo eu, infelizmente, uma atividade mais vocacionada para a subsistência ou, quando muito, com a notável exceção da que permite a produção, engarrafamento e exportação do Vinho Madeira, dirigida para um muito pequeno e limitado mercado interno e, ainda assim, competindo com produtos importados. E não há que ter receio em dizer as verdades: uma ou outra vez, melhores e, algumas vezes, até mais baratos. Apesar de eu ser um acérrimo defensor do que é nosso é que é bom e devemos comprá-lo. Por ser Madeirense, faço-o, aliás, ingénua e cegamente, mas profundamente crente e aproveito até a oportunidade para, aqui, passo a publicidade, atrever-me a recomendar a todos os Madeirenses para também fazê-lo. Por conseguinte, não sendo nenhum expert, não creio que arrisque muito ao sustentar que, para mal dos nossos pecados, a agricultura dificilmente será verdadeiramente competitiva e gerará riqueza para a generalidade dos Madeirenses. Oxalá eu esteja enganado e se prove o contrário. Terei o maior prazer em fazer pronta mea culpa. Até porque, nada me move contra a nobre e milenar atividade agrícola. Os meus avós paterno e materno viveram da agricultura. O meu pai tem sido, durante toda a vida, um agricultor em part-time. Prezo muito os que se dedicam à agricultura, tenho bons amigos entre agricultores, e tenho até pena de ter tão parcos conhecimentos agrícolas e nenhum jeito para a "poda". Porém, torpedeado e ferido o nosso Centro Internacional de Negócios da Madeira, há que colocar o turismo como vector prioritário da atividade económica da Madeira. Onde, aliás, sempre deveria ter estado. Vá lá saber-se porquê, foi sempre, por quem de direito, olhado de soslaio ao longo dos últimos anos. Essa "aversão" em relação ao turismo revelou-se, no meu julgamento apolítico, nos sucessivos opções e planos económicos, orçamentos, orgânica dos governos e nos próprios investimentos. Atente-se, então, nos investimentos. A RAM, através da Direção Regional de Turismo, diretamente, e das verbas que esta dota à Associação de Promoção da Madeira (o que não quer dizer, necessariamente, que estejam disponíveis para investir, pois, segundo as últimas notícias, se verdadeiras, ainda não entregou à Associação de Promoção da Madeira grande parte das verbas de 2010 e 2011 e a quase totalidade das de 2012), aloca para a promoção da Madeira, cerca de 5 milhões de euros por ano, se os meus cálculos estiverem corretos. E não se alegue que é mais, porque, salvo melhor entendimento, não se pode considerar, para promoção turística, as verbas que estão na Direção Regional do Turismo afectas ao Rally Vinho da Madeira e outras que tais, que não servem para atrair turistas para a nossa terra, mas para entreter os Madeirenses (e não vejo rigorosamente mal nenhum nisso, porque, em tempos de profunda austeridade depressiva, bem precisamos de alguns divertimentos - apenas não concordo, pessoalmente, que se considerem tais verbas como promoção turística). Em 2011, os hotéis da Madeira venderam, aproximadamente, 5,5 milhões de room nights. Logo, estamos a falar de menos de um euro de investimento da RAM na promoção por cada room night. Não tendo quaisquer razões para duvidar dos números referenciados pelo Sr. Vice Presidente do Governo Regional, há alguns meses, no sentido de cada turista deixar, por dia, na economia regional, 100 euros, pergunta-se: em que outra atividade investem-se de dinheiros públicos menos de 1 euro e derramam-se em toda a economia 100 euros (com a enorme vantagem da grande maioria desses euros virem de fora e muito jeito aqui darem!), acrescidos dos impostos e taxas que são pagos pelos hotéis, pelas agências de viagens, pelos restaurantes, pelas rent-a-car, etc. mas também, pelos seus empregados e pelos próprios clientes? Se se fizer qualquer benchmarking com destinos turísticos com afinidades com o nosso e, de certo modo, concorrenciais, como as Canárias, os Açores, o Algarve, o Egipto, as Baleares, Malta ou até Cabo Verde, constata-se, facilmente, que o nosso investimento publico regional na promoção do nosso destino fica muito, mas muito, aquém dos demais. As Canárias, por exemplo, pese embora as sinergias e economias de escala, pelo facto de venderem cerca de 60 milhões de "room nights", investem, ao que sei, proporcionalmente, bem mais que a Madeira. E os outros, 3, 4 e mais vezes mais. A propósito, porque não, em vez de tentar-se promover a Madeira em longínquos nenhures, cujo retorno não atinge um par de turistas para a Madeira, ou em mercados nacionais, com outlook negativo pelas razões que todos conhecemos, investir-se algum em ir até às Canárias, aqui ao lado, ver como se faz, como bem tratam eles uma atividade que lhes vale 30% do PIB e 30% do emprego? A RAM não deveria e poderia investir mais no Turismo? Deveria, pela dimensão da atividade turística e consequente impacto que tem no nosso depauperado PIB, pelos relevantes efeitos transversais que tem na economia regional e pelo número de famílias que emprega e sustenta. E, apesar dos tempos difíceis em que vivemos, da insuficiência dos meios financeiros disponíveis, poderia, se as prioridades fossem devidamente identificadas e se houvesse uma repartição equitativa dos escassos meios financeiros. Para tal, permitam-me ousar uma sugestão que muitos, porventura, considerarão esdrúxula, estapafúrdia, bizarra até ou outro adjetivo semelhante com que entendam mimoseá-la: bastava ajustar, diminuindo, 16,6% (5 milhões de euros) do investimento feito, anualmente, na agricultura (30 milhões de euros) e alocá-lo à promoção turística, duplicando-se o investimento público regional na captação de turistas para a Madeira (passando-se, assim, de 5 para 10 milhões de euros). Até porque, se se aumentar o número de turistas na Madeira, tal permitirá o crescimento de outras atividades, incluindo, como é óbvio, a própria agricultura, em virtude do incremento da procura de produtos agrícolas no mercado interno. A Madeira é muito bonita, tem uma resiliência notável, tem resistido a catástrofes naturais sucessivas, tem ultrapassado os constantes atentados de mão humana, mas também tem os seus limites. Por isso, é do mais elementar senso comum que há que bem tratar, incluindo, naturalmente, alimentar, a nossa "galinha dos ovos de ouro"!

Paulo Prada, Gestor