Já lá foi o tempo em que os e-mails partilhados por muitos internautas se baseavam em conteúdos meramente lúdicos (anedotas, apanhados) ou fortemente javardos (os famosos "XXX - cuidado ao abrir"). Desde que esta maldita crise nos bateu à porta, os e-mails passaram a ser maioritariamente de indignação, protesto, repúdio e denúncia. E não é para menos: durante mais de um ano, muitos portugueses foram estoicamente apertando o cinto, suportando os aumentos cada vez mais duros nos impostos, aguentando os cortes cada vez mais indiscriminados nos rendimentos, mas mesmo assim convencidos que estavam a contribuir para o bem comum, para um esforço conjunto que viabilizasse o controlo da dívida pública, o regresso aos mercados, a saída da Troika, enfim, para o regresso à normalidade e a uma renovada esperança para as gerações futuras. Mas tudo ruiu! Desde as simbólicas manifestações de 15 de Setembro, é notório que não há ninguém que acredite neste Primeiro-Ministro, nem há quem ainda suporte ouvir este ministro das Finanças. Essa imensa plêiade de opinion-makers, comentadores, politólogos e especialistas em generalidades que tomou de assalto a comunicação social já sentenciou por unanimidade que este Governo é um cadáver adiado. Parece que só o ilustre marciano António Borges persiste em defender as virtudes de Gaspar. Completamente desorientados, os nossos governantes passaram à táctica suicida de atirar barro à parede, a ver se algum ainda cola, enquanto se sucedem as manifestações, aumenta o descontentamento e se aproxima perigosamente o espectro da revolta e da convulsão social. Mas voltando ao tema dos e-mails, recebo diariamente inúmeros exemplos do despautério vigente, bem como inúmeros pedidos de partilha das medidas que deviam ser tomadas para "domar o monstro". Este exemplo despertou-me a curiosidade, pelo que com a devida vénia (e sem ter tido possibilidade de confirmar a veracidade do mesmo), passo a partilhá-lo: É apresentado um primeiro exemplo, publicado no Diário da República nº 255 de 6 de Novembro, no qual se declara aberto concurso para um cargo de assessor numa empresa pública, com vencimento a rondar os €3.500/mês, e que define como método de selecção a utilizar a mera "apreciação e discussão do currículo profissional do candidato". Este exemplo é comparado com outro, um aviso simples da responsabilidade da Câmara Municipal de Lisboa, que lançou um concurso externo de ingresso para coveiro, com vencimento a rondar os €450/mês. Método de Selecção: Prova de conhecimentos globais de natureza teórica e escrita com a duração de 90 minutos. A prova consiste no seguinte: 1 - Direitos e Deveres da Função Pública e Deontologia Profissional; 2 - Regime de Férias, Faltas e Licenças; 3 - Estatuto Disciplinar dos Funcionários Públicos. 4 - Prova de conhecimentos técnicos: Inumações, cremações, exumações, trasladações, ossários, jazigos, columbários ou cendrários. Além disso, o candidato deve possuir conhecimentos sobre transporte e remoção de restos mortais (os cemitérios fornecem documentação para estudo). Para rematar, se o candidato tiver: - A escolaridade obrigatória somará + 16 valores; - O 11º ano de escolaridade somará + 18 valores; - O 12º ano de escolaridade somará + 20 valores. No final haverá um exame médico para aferição das capacidades físicas e psíquicas do candidato. É caricato, mas assenta que nem uma luva à actual situação do País. Já agora, gostava de ter acesso ao currículo do Dr. Vitor Gaspar. Afinal de contas, as funções que está a exercer de certeza que lhe permitem equiparar-se a…assessor de COVEIRO…

Raul Ribeiro