A fábula cuja autoria foi atribuída a Esopo, sofreu várias alterações ao longo dos tempos, mas a moral e a própria história ganharam novos contornos quando o conto chegou à sui generis ilha da Madeira. Reza então a lenda que, também na nossa região, além de mosquitos, havia ratos. No campo vivia um rato gordo, rude e de poucos modos. Este rato imaginava ser rei e senhor de toda aquela extensão de terra, pelo que se enfardava com as raízes das mais variadas espécies da laurissilva e destruía o ecossistema sem consciência dos demais à sua volta. Por sua vez, perto do mar, vivia um familiar do camponês que também tinha aspirações monárquicas. O roedor citadino era menos corpulento e mais refinado que o seu parente do campo. Usava um lenço na lapela e o pêlo repartido ao meio no alto da cabeça. Quiçá preocupado com o futuro da espécie de mamíferos de incisivos afiados, ameaçada pela fome insaciável do rato do campo, o murganho da cidade iniciou um movimento de construção de hortas urbanas. Mas o murganho subestimou a ratazana… Quando o rato do campo ouviu os rumores da possível existência de um adversário que prometia levar as melhores raízes à urbe, deitou mãos à obra e começou a esburacar as montanhas todas, construindo uma teia de túneis nunca vista que possibilitava o transporte rápido dos mamíferos roedores a todos os pontos da ilha. Por fim, fascinados com o fenómeno, em vez de escolherem uma das obras e apoiarem um dos obreiros, cada rato da colónia decidiu engendrar um método de ascender sozinho ao poder e à soberania. Moral da história: à noite todos os ratos são pardos. E quando se reproduzem, os ratos só dão origem a mais ratos!
Rubina Sequeira, Advogada