Há excesso de Governo nos meios de comunicação social reféns dos dinheiros públicos. Disse-o no passado sábado nas 'jornadas parlamentares do PS-M' em que participei a convite dos socialistas, ao contrário de outros, que tendo sido desafiados a debater o futuro da RTP-M e do JM, preferiram permanecer na habitual zona de conforto, porventura, a postar comentários anónimos e a ver navios em vez de darem a cara e voz às preocupações.

Como o DIÁRIO fez eco das observações lançadas, alguns amuaram de imediato. Apenas e só porque achei ser elementar acabar com a opressão vigente, a mesma que deixa angustiados colegas de profissão, compromete a credibilidade dos projectos de comunicação e antecipa cenários miseráveis. Será demais desejar uma libertação “para que possa haver jornalismo sério em favor das pessoas, em favor dos reais interesses dos madeirenses, e não um jornalismo subjugado a interesses do poder que manda e que governa a Região"? Pelos vistos sim, pois nem todos comungam deste ideal. Ainda há quem queira ter rédea curta e sofrer pressões descabidas, ser pau mandado e bem pago para não incomodar. É uma opção.

Hoje reafirmo ser recomendável haver mais jornalismo livre e independente, logo, menos governo vigilante e inibidor da surpresa. Até porque as interferências abusivas nos meios ditos públicos ou pagos pelo erário são sobejamente conhecidas e, infelizmente, toleradas.

A injecção de dinheiro dos madeirenses no 'JM', mais de 10 mil euros diários destinados à propaganda ideológica, ao branqueamento das asneiras daquele que se diz “único importante” e às campanhas de aniquilação de alternativas no PSD-M; o financiamento das edições gratuitas do mesmo jornal para dessa forma liquidar o DIÁRIO, com todas as graves consequências económicas e sociais que daí advêm; a incompreensível aposta financeira numa EJM totalmente falida, a contas com incumprimentos bancários, com empréstimos solicitados à banca na ordem dos 6 milhões de euros e com capital próprio negativo que ronda os 43 milhões de euros; a intervenção assumida em conteúdos editoriais do 'JM', tal é a semelhança dos escritos não assinados com as opiniões sistemáticas de quem manda, uns e outros repletos de ofensas gratuitas e chantagens de vária ordem; os reparos públicos do poder regional à RTP-M, as sucessivas queixas à administração do canal e as manobras exercidas em Lisboa para alterar a programação local; as frequentes entrevistas televisivas de Jardim, quase tantas como as críticas do mesmo aos alinhamentos de telejornais e aos critérios usados nas reportagens; as ameaças de saneamento dos profissionais da televisão madeirense e a tentativa não conseguida de nomear um conhecido comissário político para director; são algumas das provas do pernicioso excesso do Governo nos meios em questão.

A perigosa e notada presença do Governo Regional na comunicação social tem causado distorções diversas e ilegalidades, agravadas pelo facto de haver cúmplices a outros níveis que nada fazem para repor a normalidade democrática e a Constituição.

Importa por isso colocar no seu devido lugar, ou seja, longe da gestão diária e da interferência obcecada dos meios de comunicação, um governo que para além de ser árbitro, também é jogador, contrariando as elementares regras de qualquer jogo limpo; que decreta um aumento das tiragens do seu brinquedo panfletário em pleno período pré-eleitoral; que produz lixo noticioso e força a publicação da novidade requentada como luxo; que não sabe comunicar, não deixa falar e reage sem ouvir; que foge aos debates plurais e às perguntas incómodas; que tudo comenta sem estar documentado; que evita justificações para depois poder alegar que não foi tido nem achado; que esconde verdades na esperança que nada se saiba; que cultiva uma presença deliberadamente hostil nos media, chegando ao ponto de produzir 'desmentidos à comunicação social', os contemporâneos das extintas 'notas oficiosas', quando a notícia não agrada e disso gabar-se no site oficial; que se queixa com base em caprichos à CNE e à ERC e gasta fortunas em processos judiciais por incumprimentos diversos da Lei de Imprensa; que proíbe a publicação de direitos de resposta no seu panfleto; que se vinga de quem não domina, retirando-lhes publicidade, assinaturas e visibilidade; que ameaça com expropriações ou com a justiça quem não se rende; que incentiva à prática de dumping; que coloca em "risco objectivo e grave" a preservação de um quadro pluralista no subsector da imprensa diária; que subverte o espírito do serviço público, presumia-se destinado a manter as pessoas informadas e formadas, entretidas e promovidas e não usado para servir os interesses do poder efémero.

O jornalismo na Madeira precisa que o pluralismo e a diversidade que se recomenda, que a elementar sã concorrência e o direito à existência de todos os títulos e marcas dependa apenas e só do mercado e não de uma gestão sectária dos apoios públicos assente no ódio e que até agora só tem gerado desequilíbrios, instabilidade e desemprego.

P.S. - Parabéns à rádio pública pelos 45 anos de missão na Região. E coragem! Não deixemos que se cale uma voz que seja só porque alguém fala mais alto.