As últimas três semanas são o espelho do poder no seu pior: quando as coisas não se tratam a sério nem se 'resolvem' com insultos, em regra rebentam nas mãos como castanhas quentes. Não querer fazer praticamente nada quanto ao Aedes, foi a escolha voluntária desde 2005 - devia haver legislação para julgar quem assim agiu sabendo dos riscos inerentes à presença do mosquito, sobretudo quando há fluxos de população proveniente da Venezuela e Brasil. Há 7 anos que o mosquito vector do dengue e da febre-amarela está na Madeira. E agora que a primeira doença se instalou percebe-se que o governo foi apanhado de calças na mão: não tinha um plano, uma estratégia, nada. A não ser, talvez, uma fé que nada acontecesse; mas a fé costuma estar longe destas coisas da saúde pública. Não teria sido bem melhor perguntar a quem sabe e lida há anos com situações destas? Não é fácil erradicar o mosquito, mas se se tivesse atacado o problema logo ao princípio, e uma vez que estamos a falar de uma pequena ilha, não haveria aqui uma enorme mais-valia para evitar chegar onde chegámos? E nem agora, com uma situação que não está controlada, o poder tem a humildade necessária. A humildade e a coragem. Porque atirar os técnicos (a quem apenas cabe a execução das medidas) para a frente ficando atrás do pano bem protegido é um acto de pura cobardia. Isto fica mal, sobretudo porque abre a porta a que, quando as coisas não correm bem, se chute para cima dos técnicos as responsabilidades. E foram decisões políticas que despejaram a sucessão de mentiras sobre o dengue - num dia "a afluência às urgências está a diminuir", no outro a Direcção-Geral de Saúde (foi preciso que interviesse para sabermos com o que lidamos) confirma um acréscimo de casos; ora se interrompeu o combate químico "por não ter os efeitos necessários", ora "estamos precisamente a entrar no plano do controlo químico"; às 10 o dengue é um "mito", às 10 e 5 as re-infecções são perigosas; entretanto sabe-se que não foi uma decisão que determinou que num fim-de-semana não fossem efectuadas análises - foi a falta de reagentes! Entre tamanha trapalhada a pergunta que fica é: Como é que se pode acreditar nesta gente? É isto que alimenta a incerteza e reduz a zero a seriedade com que este assunto deve ser tratado. Não era bem melhor agarrar o problema de frente, com toda a clareza, em vez de fingir que nada acontece? Há Aedes, há dengue, podemos ter situações ainda mais complicadas. Sabe-se que a situação exige a participação das pessoas. O que é que as autoridades têm que fazer além dos inquéritos epidemiológicos? Saneamento de espaços em jardins, ribeiras, águas paradas (Santa Cruz, em frente ao mercado, não será um poço de infestação? Foram lá ver?). E educação das populações, com mensagem claras e precisas. "Não devem ser usados anti-inflamatórios não esteróides" - mas que raio é isto? Quantas pessoas percebem esta linguagem de químicos? O que se deve dizer é claro e inequívoco: tem os sintomas do dengue? Vá às urgências, ao médico, à farmácia. Por que é que não há cartazes a explicar que não basta despejar a água dos pratos mas que é preciso lavar bem os vasos, porque os ovos resistem durante semanas em meio seco e mal apanham um pingo de água se desenvolvem? Estão a ser tomadas medidas para proteger as populações debilitadas, como as atingidas pelo alcoolismo e a toxicodependência? Oxalá as malditas 'drogas legais' não criem novo contingente de imunodeprimidos. Para além da desinfestação dos aviões para impedir que o mosquito saia, não há procedimentos que possam minimizar o risco de 'importarmos' uma outra estirpe de dengue ou a febre-amarela? Estão a ser previstas estratégias para o futuro, depois deste surto? Não sei como classificar o que se tem passado nestas semanas - se estupidez, se incompetência, ou se é ainda pior. Mas sei que nada evidencia que, pela primeira vez, se aprendeu a não cometer os mesmos erros. Nem depois da 'casa roubada' se tem a humildade de chamar o carpinteiro para pôr trancas na porta. Ou será que ninguém percebeu a palavra de ordem do Director-geral da Saúde de que é preciso um 'combate sem tréguas'?

Violante Saramago Matos